Reencontrando Heloísa

Último dia do meu período de férias/recesso/revisão médica em Maceió. Preciso trocar o óleo do carro e calibrar os pneus antes de, no dia seguinte, pegar a estrada. Vou almoçar com Miriam no espaço de conveniência “Pão & Cia”, no bairro do Farol. Quem está na mesa ao lado? A ex-deputada, ex-vice-prefeita, ex-senadora, ex-candidata à presidência da República Heloísa Helena. Há poucos dias havia comentado a Miriam como Heloisa é uma não-notícia na imprensa alagoana, dominada pela oligarquia local. Alguém pode passar semanas, e não verá uma linha sobre a sua atuação política, embora tenha sido eleita vereadora mais votada da capital, com mais de 100.000 votos (mais que o dobro do segundo colocado), e esteja à frente das pesquisas para o Senado. Ela furou o bloqueio recentemente usando o horário eleitoral gratuito do seu partido, o PSOL, em rede nacional.

Estive com Heloisa em várias ocasiões no passado: no acampamento batista de Paripueira, em seu gabinete na Assembléia Legislativa, ou participando de um comício de sua tentativa de ser eleita prefeita. Naquela ocasião eu era candidato a vice-prefeito de Olinda, e o candidato a vice-prefeito dela era um amigo ex-ABU, o batista Joaquim Brito, ex-presidente do Sindicato dos Urbanitários e ex-presidente da CUT-Alagoas, hoje presidente do Diretório Regional do PT. Ouço os seus críticos, sempre voltados para possíveis falhas pessoais, mas não analisando as suas propostas, o seu discurso. Confesso que votei nela no primeiro turno das últimas eleições presidenciais (Miriam votou em Cristovão Buarque). No segundo turno, por exclusão, ela votou em Lula, e eu fui poupado, pois estava nos Estados Unidos representando a Diocese do Recife no Concílio da Diocese Companheira de Springfield (TEC).

Sempre alegre e afetuosa, Heloisa conversou sobre o momento nacional: sua decisão de não concorrer de novo à presidência, pois já tinha cumprido esse papel, e há em Alagoas a necessidade de um nome alternativo (os outros dois senadores do estado são os “companheiros” Renan e Collor), sua amizade pessoal com a senadora Marina Silva, a evangélica pré-candidata presidencial pelo PV, por sua biografia e pela necessidade de termos uma proposta de desenvolvimento sustentável para o País, apesar dos problemas internos do Partido Verde e sua política digamos “elástica” de alianças (como com o PSDB no Rio de Janeiro). O PSOL, coerente com suas posições, apesar da simpatia pela Marina, deverá lançar um candidato próprio. Um dos nomes é o do Dr. Plínio de Arruda Sampaio, democrata-cristão por formação, pessoa íntegra, ex-deputado, foi fundador do PT e redator dos seus Estatutos, deixando aquela agremiação partidária quando a mesma deixou de ser um partido contra o sistema para ser um partido do sistema, abandonando sua ênfase ética, sua política democrática pelas bases e seu horizonte à construção de um socialismo democrático elaborado na caminhada brasileira.

Creio que candidaturas aparentemente menores podem não somente tornar conhecida as personalidades (como Serra e Ciro, p.ex.), mas servem de espaço para que leituras, ideias e propostas que não conseguem espaço na “grande imprensa” possam ter uma plataforma, que, inclusive, poderão ser incorporadas pelos contendores de um eventual segundo turno.

O Presidente Lula afirmou que, pela primeira vez, teremos apenas candidatos de esquerda concorrendo à Presidência da República (na verdade, ex-militantes, como Serra) e ex-combatentes (como Dilma), mas, em relação ao que minimamente se entenda por esquerda, bota “ex” nisso…

Heloísa Helena tem sido muito firme em assumir a sua formação cristã, quando, por exemplo, defende a sacralidade da vida e a oposição ao aborto, enfrentando os setores mais radicalmente secularistas, antes do PT, hoje do PSOL, e se sente solidária à senadora Marina nesse aspecto, quando se sabe que a tática dos seus oponentes tem sido caracterizá-la como “religiosa retrógrada” junto aos intelectuais e setores progressistas, e de estar em um “partido de maconheiros” junto aos evangélicos mais extremados, desinformados e ingênuos.

O ano político está apenas começando, e a temperatura tende a esquentar. O Arruda, do “mensalão do DEM” está preso. Mas, cadê os outros dos outros mensalões e assemelhados do presente governo federal e do anterior? Exemplo ou bode expiatório?

E os crentes com isso? Vamos conversando ao longo do ano.

Despeço-me, abraçando Heloísa e lhe desejando felicidades e as bênçãos de Deus.

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.

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