O tigre confessa

Alguém dizia que o golfe é a forma mais cara de jogar ao berlinde. Concordo. Golfe? Não faz parte das minhas preocupações. Tiger Woods, sim: o génio do rapaz merece um minuto de atenção. O minuto de atenção que dedicamos ao talento natural, com admiração sincera.

A minha admiração por Tiger Woods acabou. Por causa dos múltiplos casos extraconjugais? Não sejam ridículos. O problema não está nos casos; está na confissão pública de Tiger Woods a semana passada, um espetáculo pornográfico a que assisti com vergonha alheia e própria. O que era aquilo?

Aquilo, escreve Rod Liddle no “The Sunday Times”, é uma reactualização dos julgamentos sumários promovidos pelo regime estalinista na década de 1930. Touché! A expiação pública de “pecados privados” (aberrante categoria) sempre foi uma forma particularmente indigna de destruir um ser humano.

Mas relembremos a história: Woods, apesar de cultivar uma imagem de recato familiar, tinha uma vida de Casanova. O problema, se de um problema se trata, seria assunto para resolver com a sra. Woods. Em casa. Em privado. Longe da rua.

Agentes do atleta, publicitários e outros jornalistas avulsos discordaram: o mundo gosta de uma boa confissão porque o mundo sente que uma figura pública pertence, precisamente, ao público.

Woods apareceu: entristecido, lacrimejante, a prometer redenção através da terapia e do budismo. No final da confissão, em sequência de fazer tremer os Himalaias, a mãe foi chamada ao palco e os dois abraçaram-se em gesto de reconciliação familiar.

Nos dias seguintes, o mundo discutiu seriamente a confissão de Woods. Teria sido genuína? Teria sido fabricada? Melhor: teria enterrado o caso?

Curiosamente, no meio desta orgia miserável, nenhum dos inquisidores se olhou ao espelho para questionar a natureza indigna das suas próprias observações. Não o fizeram agora. Não o fizeram meses atrás, quando David Letterman confessou no “Late Show” pecadilhos iguais. E não o fizeram nunca porque se instalou a ideia sinistra de que a privacidade é um luxo. “O pequeno Hitler que existe na cabeça de cada um”, afirma ainda Rod Liddle, não tem descanso quando existe cheiro a sangue.

Mas será a privacidade um luxo? E estarão as “figuras públicas” interditas a esse luxo?

Não se iludam. A privacidade; a existência de um espaço meu e dos meus, onde a multidão não entra, é talvez a maior conquista da civilização judaico-cristã. Destruir essa barreira sempre foi e sempre será o princípio da tirania.

João Pereira Coutinho, na Folha Online.

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