Os Guiness fala sobre ciência, religião e a guerra cultural

Este vídeo que eu estou trazendo hoje aqui no Tubo, produzido pela Fundação BioLogos, oferece uma perspectiva interessante para entendermos os motivos pelos quais tantos defendem haver um conflito, ou uma incompatibilidade entre ciência e fé. Segundo o fundador do Trinity Forum, Os Guinness, o “conflito” entre ciência e religião, ou a tentativa de estabelecer na opinião pública a noção de que existe esse conflito, é apenas parte de um embate maior, de uma guerra cultural.

No entanto, Guinness traça uma diferença entre a Europa e os Estados Unidos. Aliás, o conceito de “guerra cultural” na Europa é muito mais antigo, datando pelo menos do século 19, com Bismarck (que pode ser considerado o autor do termo), embora eu tenha a impressão de que podemos traçar suas origens no Iluminismo e na Revolução Francesa. Já nos Estados Unidos, afirma Guinness, os ataques à religião são muito mais recentes em comparação com a Europa, e só começaram a ocorrer de 40 anos para cá, no contexto das discussões sobre a influência da religião na vida pública, especialmente após a ascensão da “direita religiosa” (religious right), que para muitos atingiu seu ponto culminante nos dois mandatos de George W. Bush. De certa maneira, diz Guinness, a direita religiosa ajudou a criar o Novo Ateísmo, como se ele fosse uma reação à tentativa da direita religiosa de “dominar” os Estados Unidos. Eu particularmente tenho minhas dúvidas quanto a isso. De fato, o Novo Ateísmo veio depois da direita religiosa, mas pode ser que estejamos caindo numa falácia de post hoc ergo propter hoc (se A aconteceu depois de B, então A aconteceu por causa de B).

O tal “conflito” entre ciência e fé, continua Guinness, só foi entrar na história quando se percebeu que os fundamentalistas associados à direita religiosa tinham um conhecimento científico medíocre. Aí, efetivamente, os religiosos entregaram o ouro ao bandido. E o que houve a seguir, embora Guinness apenas mencione o fato de passagem, é que o Novo Ateísmo construiu um espantalho para poder bater nele à vontade.

Já que mencionamos uma falácia, lembremo-nos do kit de detecção criado por Carl Sagan: “espantalho” é a falácia de criar uma caricatura de uma certa posição, instituição, entidade, etc., que se torna muito mais fácil de atacar. Você passa a impressão de estar destruindo aquela posição quando está destruindo apenas a caricatura. O que o Novo Ateísmo faz é mostrar fundamentalistas religiosos americanos “tentando instalar uma teocracia na América” (é o que dizem), fundamentalistas islâmicos explodindo coisas por aí, e dizem “viram? Religião é isso“. Com Deus não é diferente: cria-se uma caricatura de Deus, do tipo “Deus é só uma explicação para as coisas que não entendemos na natureza”.

Da mesma forma, cria-se uma caricatura da relação entre ciência e fé, dizendo “vejam esse povo que acha que a Terra tem 6 mil anos e foi criada em seis dias de 24 horas, e esses outros que, em vez de levar o filho ao médico, ficam rezando esperando que ele melhore. Estão vendo como ciência e religião são inimigas?”. Mas a religião é mais que fundamentalismo, Deus é bem mais complexo que esse “Deus das lacunas” (contra o qual eu também me coloco, aliás), e os exemplos extremos (embora, admito, numerosos) estão muito longe de refletir como a maioria das pessoas religiosas encara a ciência. Mas, como bater em espantalho é fácil…

Marcio Campos, no Tubo de ensaio.
dica do Chicco Sal

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