Paris Hilton: a última mártir do lulismo

Libertem Paris!

Paris Hilton é tão anos 00. Gênia do marketing viral, ejetou-se à fama global com o vídeo que a mostrava fazendo longo trabalho oral no namorado, hit instantâneo no YouTube.

Foi a felação mais bem remunerada da história. Uma câmara na mão e uma, digamos, ideia na cabeça: herdeira da cadeia dos hotéis Hilton, bela e loira, expondo-se em vídeo hiperdevasso na web, para desfrute global. Um estouro!

Desde então, a loira só colhe os dividendos, protagonizando realities engraçados na TV e vendendo beicinhos e decotes pelo mundo.

Mas foi logo no Brasil que censuraram Paris.

Talvez por lobby dos concorrentes ou tacanhez explícita, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres pediu ao Conar, o órgão de autorregulamentação do mercado publicitário, que retirasse a propaganda de cerveja protagonizada por Paris do ar por considerá-la sexista e desrespeitosa com a mulher. Isso no país do Carnaval, do erotismo rasteiro-grosseiro de novelas e humorísticos, do fio dental disseminado, do Big Brother Bundas.

Nossa sexualidade mais solta é das nossas maiores virtudes. Como escreveu o também genial Oswald de Andrade no início do século passado, “Quando o português chegou / Debaixo duma baita chuva / Vestiu o índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido/ o português”.

Somos nós, agora, pseudopuritanos, querendo vestir Paris Hilton.

A peça publicitária da cerveja Devassa, da agência Mood, é uma cena de voyeurismo light no Rio de Janeiro, essa cidade carola, com um fotógrafo mirando sua teleobjetiva para a cerveja na mão de Paris, que dança numa sacada na orla ensacada num minivestido –uma freira se comparada aos (inexistentes) trajes da mulata globeleza, aquilo sim um exemplo de respeito à mulher.

Mas a secretaria das Mulheres, ligada à Presidência da República, não liga para a mais do que estereotipada mulata-objeto. Nem pensa em tocar no Congresso reforma da Constituição para que os milhões de empregadas domésticas tenham direitos trabalhistas como os outros cidadãos.

Em agosto de 2008, a ministra Nilcéa Freire, titular da secretaria, disse à Folha: “O que o governo quer é apagar essa mancha de discriminação que está presente na Constituição. A ideia é mandar ainda neste ano, quando comemoramos 20 anos da Constituinte, uma PEC para resolver essa questão e ampliar os direitos dessa categoria que é a maior do país.”

Apesar do discurso, Freire nada fez até aqui pelas milhões de domésticas brasileiras, perversamente discriminadas pela nossa Carta. Mas arrumou tempo para censurar Paris.

Perverso mesmo, para ficarmos nas loiras geladas, é a permissão para que as cervejarias façam campanhas publicitárias de um produto nocivo à saúde, porta de entrada ao alcoolismo, em horário nobre da TV, com astros do esporte e gostosonas, focando jovens e adolescentes brasileiros.

Embrulha o estômago o fato de um governo de moralidade duvidosa (como todos os governos brasileiros) querer (e conseguir) censurar uma peça publicitária inofensiva alegando a defesa da moralidade.

Pior ainda é imaginar que o Conar tenha se dobrado à pressão de um governo que quer tutelar cada vez mais o país, tratorando instituições, regras, procedimentos e outras coisas.

Paris Hilton é a última mártir do lulismo.

A decisão do Conar vale até o fim do mês, quando o órgão deve decidir o caso de forma definitiva. Ele ainda pode se emendar.

Abaixo a censura!

Sérgio Malbergier, na Folha Online.

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