Agostinho e Teresa

Assombram o cristianismo duas tentações opostas: a teologia e o misticismo. Mais fácil do que evitá-las é mapeá-las no eixo dos sexos: a teologia é distração eminentemente de homens, o misticismo é paixão de mulheres. Para usar os termos a que sempre retorno, a teologia é um jogo, o misticismo busca a partilha – sendo que jogo e partilha referem-se aqui ao modo fundamental em que operam, respectivamente, homens e mulheres.

A teologia apresenta todos os componentes básicos do jogo masculino: o desafio, o código e o prêmio. O cristianismo místico, por outro lado, exibe as características da partilha feminina: ele busca o contato e o equilíbrio e está fundamentado em fluxos, canais e trocas. A teologia busca incessantemente compreender, tabular, fixar limites; o misticismo quer conhecer, relacionar-se, desfazer os limites. A atividade fundamental da teologia é a especulação mental; do misticismo, a contemplação. O homem gasta o tempo com idéias a respeito de Deus, a mulher quer mergulhar num relacionamento intenso com ele.

Não é por acaso que a maioria esmagadora dos teólogos foi e é composta de homens como Agostinho, e que os maiores expoentes do cristianismo místico foram mulheres como Teresa de Ávila. Agostinho e Teresa representam respostas opostas a uma mesma carência, colocadas em ação pelos mecanismos naturais a cada um dos sexos (o místico São João da Cruz é quase uma exceção, mas é preciso reconhecer que há em geral mais homens no terreno do cristianismo místico do que mulheres no terreno da teologia).

Para ser justo e apesar do meu evidente interesse no jogo, não posso deixar de simpatizar mais com o misticismo do que com a teologia. Deveria parecer evidente que o Deus da Escritura cristã deseja menos ser compreendido racionalmente do que estabelecer um relacionamento. A filosofia é, na verdade, um jogo mais razoável do que a teologia: a filosofia, pelo menos, trata do que pode, em princípio, ser conhecido. A teologia é infinitamente mais ambiciosa; sua pretensão de destrinchar os meandros da insondável mente de Deus produz resultados quase sempre desastrosos.

Dos males, o misticismo é, por certo, o menor. Sua ênfase na oração, na meditação e na contemplação mantém aceso o assombro de Deus e mantém-no como o insondável Outro – um Outro que não pode ser exatamente compreendido ou colocado numa caixinha, mas com quem podemos, estranhamente, nos relacionar. Neste sentido, Deus não é um Outro mais insondável do que somos para todos os outros.

A coisa ruim que o misticismo poderia fazer é, como já aconteceu, afastar-nos do mundo pelo mergulho irreversível em nós mesmos. Os bons místicos, no entanto, sabem que mergulhar em Deus é tocar os outros no mundo. Conhecer a Deus é, naturalmente, conhecer o amor. Deus amou o mundo de tal maneira, e não esperaria destino menos glorioso de nós.

Paulo Brabo [via site da Ibab]

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