Dicas para pedir aumento

Como abordar o chefe segundo Georges Perec

A disseminação dos manuais de autoajuda não acontece apenas no setor chamado de “não-ficção” em listas de livros mais vendidos (por “não-ficção”, entendem-se também os romances psicografados, e neste aspecto tenho minhas dúvidas sobre o estatuto de realidade dessas obras). Nos últimos tempos, tenho notado que a autoajuda se infiltrou também na ficção. Guias de como se dar bem na vida conquistando pessoas e fazendo amigos são agora vendidos sob a forma de histórias de vampiro, contos de mistério e horror, sagas familiares, aventuras e epopeias. É uma distorção literária que só ajuda mesmo o autor a vender mais livros, e pode derreter os neurônios do leitor.

Eu sou antiquado, pois não aceitaria de jeito nenhum conselhos de um lobisomem sobre carreira e ética na governança corporativa. Não me vejo buscando o oráculo de um golden retriever. Nem pediria orientações sobre como virar gerente a um alienígena invasor de corpos ou a um vampiro, mesmo que seja o simpático e eterno adolescente (portanto, idealista) Edward da “saga” Crepúsculo, de Stephenie Meyer. As pessoas andam tão desorientadas que qualquer fonte serve para reforçar convicções já adquiridas. E assim os escritores vendem autoajuda sob as mais variadas forma, que os leitores consomem alegremente como autoembuste.

Considerada a minha reduzida taxa de credulidade em relação ao universo em expansão dos conselhos, confesso que me surpreendi com o seguinte título de um livrinho lançado pela Companhia das Letras, editora que sempre se recusou a adotar o gênero: A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento (84 páginas, tradução de Bernardo Carvalho). Cheguei a pensar: será que o refinado editor e escritor Luis Schwarcz se rendeu à faixa mais óbvia do mercado de livros? Ao prestar atenção no volume, no entanto, descobri que o autor da obra era Georges Perec. Não se trata de um guru motivacional. Perec não é a versão francesa de Roberto Shinyashiki. Ao contrário, foi um escritor de ultravanguarda que fez sucesso na década de 60 e morreu em 1982 aos 46 anos. Um título de sua autoria com essa cara de autoajuda é no mínimo intrigante.

Perec ficou famoso por seus contorcionismos combinatórios. Fascinados pelas conquistas da estatística e da matemática, os ficcionistas e os não-ficcionistas daquele tempo abraçaram o extremo racionalismo para dar conta de seus anseios, dúvidas e inquietações. Foi a idade de ouro do estruturalismo, da semiótica, da música serial e da op art. Tudo poderia ser traduzido por um algoritmo. Hoje essa atitude vanguardista soa ingênua, como se esses intelectuais agissem como homens das cavernas de um novo tempo, o nosso tempo de internet e de promiscuidade científica e literária. Enfim, Perec emociona pelo que ele tem de crente nas variações combinatórias.

Ele ficou famoso com o romance La disparition (1969), em que praticava a “lipogramática”, ou seja, eliminava um termo da linguagem para elaborar sua história – no caso, ele eliminou da narrativa todas as palavras com a vogal “e” – a mais frequente na língua francesa (e na portuguesa também). O resultado é excêntrico, porque a ausência de uma letra tão importante fez com que o autor usasse de circunlóquios para termos banais como a palavra “vermelho” (rouge) e outras tantas. Claro que era uma estratégia criativa, e Perec é um grande escritor muito acima da média. Ele vaza sensibilidade dos números e do cálculo de probabilidade. Leia +.

Luís Antônio Giron, no site da
Época.

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