30 anos do assassinato de Oscar Romero

Pastor-Profeta-solidário
No dia 24 de março de 1980, Oscar Arnulfo Romero y Galdamez foi terrivelmente assassinado no altar da capela do Hospital de la Providencia, em El Salvador. Este acontecimento gerou uma onda de reações por toda América Latina, Caribe, Ásia, África e muitas partes da Europa. Ele foi aclamado, junto com o Rev. Martin Luther King, Jr., líder das comunidades afroamericanas nos Estados Unidos que clamavam por justiça e liberdade.

Servidor do povo de Deus
Oscar Arnulfo Romero y Galdámez nasceu na Ciudad Barrios, um pequeno povoado salvadorenho, perto da fronteira com Honduras. Pertenceu a uma família numerosa com uma mãe trabalhadora e dedicada e um pai telegrafista que se preocupava por todos eles. Desde menino, cultivou valores cristãos essenciais e forjou um depurado espírito de serviço e compromisso com as pessoas humildes e pobres. Nunca gostou da ostentação e do luxo, era tímido e reservado. No entanto, costumava estar aberto a conversas e a trocas de ideias que o formaram e desafiaram. Alguns de seus detratores tentaram descrevê-lo como medíocre e pouco reflexivo, mas jamais alcançaram seu objetivo porque o Monsenhor possuía uma inteligência natural e uma qualidade humana excepcional. É importante destacar que ele era brilhante e humilde, um autêntico líder espiritual com um evidente carisma pastoral. Ali não havia fingimentos nem poses ensaiadas.

“Minha posição de pastor me obriga a ser solidário com todo aquele que sofre e apoiar todo esforço pela dignidade dos homens (sic)”.

Esta postura está sustentada por seu seguimento a Jesus Cristo. Seguir a Jesus era a vocação suprema, mesmo em meio ao medo e à angústia, porque o clamor do evangelho se impunha.
Por esta convicção e urgência em relação ao chamado de Jesus Cristo, Romero sente que não é possível nem negar a si mesmo nem ser neutro: “Irmãos”, dizia, “que linda experiência é seguir um pouquinho a Cristo e, em troca disto, receber do mundo uma onda de insultos, discordâncias, calúnias, perdas de amizades, ou ser visto com descrédito.”

A voz profética

Um aspecto fundamental que complementa e define o pastor-profeta é o martírio. Monsenhor Romero o assumiu como o custo do discipulado, lendo os sinais dos tempos, identificando-se com os pobres a partir de sua identidade cristã. Assim, ele foi forjando em sua práxis cotidiana os perfis de sua teologia e compromisso. O testemunho de Rutilio Grande, martirizado terrivelmente, e o de outros sacerdotes seus o levaram a uma compreensão mais profunda e definitiva na aceitação de seu próprio martírio.
Estas palavras tão sinceras e sensatas resumem isto claramente:

“O martírio é uma graça que não creio merecer.
Mas se Deus aceita o sacrifício de minha vida
Que meu sangue seja a semente da liberdade
E o sinal de que a esperança será logo uma realidade.
Minha morte, se for aceita por Deus, que o seja pela libertação de meu povo
E como um testemunho de esperança no futuro.”

Por estas razões, em um testemunho pessoal, um mês antes de seu martírio, medita profundamente e exclama:
“Desejo encontrar-me com Jesus e participar de sua obediência ao plano salvífico de Deus”.

Uma voz pastoral, compromisso com a verdade
Monsenhor sabia que sua voz estava adquirindo maior proeminência e impacto a cada dia. A tão conhecida frase “eu sou a voz dos sem voz” era um sinal cotidiano de sua ação pastoral e a atenção aos mais pobres e marginalizados. Por isto suas homilias foram transformando-se em fonte de consolo, anúncio e denúncia. Estudava em seu pequeno apartamento informes e relatos, lia livros pertinentes de teólogos da libertação, meditava e ponderava situações buscando direção para o povo de Deus.

Esta voz comprometida o levou a denunciar os ricos e poderosos, a exigir a defesa da vida, as corrupções em todos os níveis, a mentira tão sistemática e estruturada que encobria desde a tortura até as desaparições e os assassinatos. Não hesitava em apresentar casos concretos em suas homilias e cobrar dos governantes e das forças armadas respeito pela dignidade humana, pela promoção da paz com justiça e preservar para as futuras gerações uma pátria em que houvesse lugar para todos na fraternidade e na liberdade plenas.

[…] no dia de seu assassinato, ali na capela do Hospital de la Divina Providencia, onde oferecia uma missa em memória de Dona Sarita, uma fiel paroquiana, sua homilia põe em perspectiva o que foi sua entrega final:

Vocês acabam de escutar no Evangelho de Cristo que é necessário não amar tanto a si mesmo a ponto de se proteger dos riscos de vida que a história nos exige, e que aquele que quiser afastar de si o perigo, perderá sua vida”.

E ele a ganhou para seus irmãos e irmãs e para Cristo. Caiu assassinado pela mesma violência que tanto denunciou. Junto ao pão e ao vinho, nesse preciso momento, foi martirizado, e sua vida ficou consagrada para sempre em Deus.

“A Palavra fica” , memória subversiva

O profeta transcende o seu tempo, mas sua mensagem permanece vigente.
“A Palavra fica”: este é o grande consolo daquele que prega. Minha voz desaparecerá, mas minha palavra, que é Cristo, ficará nos corações que quiserem acolhê-la.

Alguns pontos importantes

É preciso preservar a “memória subversiva” de Monsenhor Romero e não permitir que se coopte sua figura vertical profética. Que não se dissipe nem se dilua em espiritualidades falsas este espírito incorruptível, claro em seu compromisso com a verdade e os mais altos valores éticos e morais.

Monsenhor Romero, sempre presente, vivo na memória de nossos povos, presente hoje no povo salvadorenho e em todo lugar onde se necessite justiça e libertação.
Com as palavras do poeta-compositor salvadorenho, Alvar Antonio Castillo, dizemos uma vez mais:

Monseñor, vives hoy en el corazón
Del pueblo que tanto te amó
Monseñor, tu verdad nos hace marchar
A la victoria fina

Neste momento de buscas, tenhamos fé diante das incertezas que nos trazem engano. Elevemos nossos pensamentos e reafirmemos a vida, ministério e memória de Monsenhor Romero. Oremos solidariamente com os que sofrem. Desta forma, reproduziremos a atitude humilde e de serviço deste mártir latinoamericano e universal.

Por Carmelo Alvarez, ministro ordenado pela Igreja Discípulos de Cristo, professor de Teologia e História da Igreja no Christian Theological Seminary, EUA.
tradução: Wagner Guimarães

Fonte: Revista Novos Diálogos / Leia +
Veja também: Site Celebrando Monseñor Romero
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