Homens com buceta. Uma força política para as mulheres.

Hoje comemoramos o dia internacional da mulher, no entanto, ontem já em países com fuso horário de “vanguarda” como Japão, Austrália, China e outros, já rolava festejos femininos. Enquanto os deuses do outro lado do planeta celebravam as deusas, eu liguei para o reverendo Salsicha e avisei que não iria no culto pela manhã na IPVI, pois precisava fazer uma pesquisa sobre estética e pragmatismo na arte de Richard Shusterman na biblioteca do CCBB.

Antes de embarcar na leitura acadêmica dominical, eu resolvi ir a famosa feira da Glória para comprar algumas coisinhas para eu ficar fortinho. No retorno, me deparei com uma mulher ilustre. Quem era? Era a Helena, colega de disciplinas de filosofia no IFCS. Ela estava cheia de crises, desanimada com a vida pois não tinha sido aprovado na primeira tentativa de mestrado. Queria chutar o balde com tudo; queria voltar para a casa dos pais na roça, etc, etc; enfim, estava se sentindo um lixo. Entre bananas, abacates, mangas, e outras frutas, o papo rolava solto e eu e ela erámos fertilizados pelo ânimo.

Chegamos a uma conclusão de que aquele encontro do acaso, foi um bom encontro em termos espinosianos, pois foi capaz de nos recolar na vida novamente, porque os nossos desertos são condição de possibilidade para abertura de novos horizontes, e nos possibilitam a fazer outras coisas que não faríamos caso estivéssemos vivendo confortavelmente. Como diz Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola”.

Presbiterianos adoram ficar possuídos pela unção da birita. Após a celebração metafísica noturna, fomos biritar no petisco da Vila e mais uma vez no caminho de casa, por volta de meia noite, eu me deparei com uma das maiores cineastas do cinema independente alemão. Quem era? Era a Monika Treut famosa mundialmente por seus filmes em prol da causa feminista e transsexual, causa gay, etc, etc. Quando eu gritei: Hallo! Hallo! Ela olhou para trás, veio ao meu encontro e me deu um abraço e beijo. A gente já se conhecia um pouco, pois o CCBB está efetuando uma amostra de seus filmes esse mês. Entre trocas de contatos, a gente relembrou algumas idéias de alguns de seus filmes e sobre a multiplicidade de pontos de vista que as pessoas externaram a respeito de suas idéias cinematográficas. Uma coroa chegou a dizer que os filmes dela eram bizarros. Outros (a) adoraram. Eu achei um barato, pois percebi que ela tem um coração na cabeça e uma câmera na mão quando ela roda os quatro campos do planeta para mostrar a diversidade cultural.

Em um de seus documentários chamado GENERONAUTAS: JORNADA POR IDENTIDADES MUTANTES, ela mostra a vida de um grupo específico de transgenes de São Francisco nos EUA. Numa das cenas, ela filma um homem que nasceu com uma vagina em formato de pênis. Quando ele ia transar com um mulher, colocava-se um tubo de plástico, e a vagina ficava ereto, se tornando um pênis. Ao tirar o tubo de plástico, o cara ficava brocha e virava uma vagina. Então a Monika disse: “Homens com boceta se constituem numa força política para as mulheres”.
Mulheres machos também se constituem uma força política para os homens.

O livro bíblico de Juízes, narra a história de Debora que foi lutar na Guerra como qualquer outro homem. Ela desafiou os padrões da época e arriscou tudo em nome de um ideal partriótico. Ela foi uma personalidade importante para a vitória naquele momento específico da história de Israel. Carl Jung escreveu que carregamos os arquétipos do ANIMA E ANIMUS que nos proporcionam equilíbrio. Todos nós temos os aspectos masculinos e femininos dentro de nós. As vezes um é excessivo e o outro é recessivo, mas não existe só macho e só fêmea como escreveu o narrador de Gênesis. Deus não é tão burro assim para fabricar seres isolados.

Para Deleuze, a teoria de Proust é sobre a transsexualidade. Todos nós somos uma coisa e outra. Temos uma parte masculina e feminina. Quando nos relacionamos com o outro, a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte feminina do outro, ou a parte feminina pode se relacionar com a masculina do outro, ou a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte masculina do outro, ou a nossa parte feminina pode se relacionar com a parte feminina do outro. Podemos ter várias possibilidades de relação. Como dizia Roger Bastide: “Eu sou mil possíveis em mim, e não me resignarei a ser apenas um deles”.

Aposto na ideia de que quando Débora foi para a Guerra, o lado masculino dela falou mais forte, e o lado feminino ficou acanhado, no entanto, imagino que ela também era uma ótima esposa e cuidava do seu marido com singeleza afetiva. Para isso, ela precisava atiçar o lado feminino para arrebentar dentro das quatro paredes sem deixar a peteca cair. O marido de Débora ficou tão emocionado a ver a versatilidade de sua mulher. A ficha caiu quando ele ouviu a música SUPER-HOMEM de Gilberto Gil.

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história

Joe Black

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