O dia em que o fantasma virou defunto

Bati a porta, saí pelas ruas cantarolando qualquer coisa em sol. Lá, do outro lado daquele trinco que só abre por dentro, jazia um fantasma defunto. Quem disse que fantasmas não morrem deveria ir àquela casa só para espiar esse um. Tudo bem que morreu faz pouco, ainda tem quentes as pontas de um ou outro dedo, mas as canelas estão frias. Já não respira, já não incomoda, já não assombra. Se parece olhar alguma coisa é porque ninguém se deu ao trabalho de cerrar-lhe as pálbebras. Pois que fique lá! Se feder, não saberei. Já não divido a casa com o dito morto e pouco se me dá se ali passar todos os séculos estirado no meio daquela sala sem mobília. Bati a porta e saí leve, cantarolando qualquer coisa entre si e dó. Minha canção é alegre, que não nasci para carpideira. É melhor mesmo que os mortos enterrem seus mortos. Quanto a mim, não paro de sorrir e de dançar livremente nos braços do meu amor.

Ana Cristina Mendes Gontijo, no Notas de aprendiz.

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