Mundo, Missão e Igreja

Hoekendijk era um crítico veemente da visão centrada em igreja de missão. No seu pensar, o mundo e o Reino de Deus (Evangelho) estão correlacionados. O Reino de Deus é destinado para o mundo. O mundo é o campo onde as sementes do Reino são semeadas – a cena da proclamação do Reino. […] No seu esquema, é Deus-Mundo-Igreja e não Deus-Igreja-Mundo. Ele escreveu:

“Assim que nós falamos de Deus, nós também estamos trazendo ao discurso o mundo como palco teatral de Deus para sua ação, e é principalmente a Igreja que o conhece e irá respeitá-lo. Assim que a Igreja reconhece Deus, ela também admite sua própria posição excêntrica implícita, esperando que em algum momento possa ser verdade [o fato de] poder servir como instrumento para honrar o valor e o destino do mundo. A Igreja excêntrica não pode insistir em proteger suas próprias estruturas. Ela não possui uma sociologia particular; ao invés ela usa – apenas funcionalmente – todas as estruturas do mundo disponíveis tanto quanto sejam usáveis.”

O relatório “Estrutura Missionária de Congregações’ publicado em 1967 sob título “Igreja para Outros” salienta:

“A Igreja existe para o mundo. É chamada para o serviço da humanidade. Não é uma eleição para privilégio mas para compromisso de serviço. A Igreja vive para que o mundo possa conhecer seu próprio ser. É pars pro toto, é o primeiro fruto da nova criação. Mas seu centro está fora de si; ela deve viver ex-cêntrica. Ela deve buscar aquelas instituições no mundo que conclamam a viver responsavelmente e ali ela deve anunciar e apontar para o shalom, aquela posição ex-cêntrica da Igreja implica que nós devemos parar de pensar de dentro pra fora.”

[…] Não é suficiente tentar resolver os problemas de eclesiologia adicionando ‘missão’ à marca clássica da igreja. O que é necessário é mover a eclesiologia para fora do centro da preocupação teológica, pois assim que a eclesiologia torna-se central, ela é falsificada. O caminho para uma verdadeira eclesiologia deve ser indireta, pois a igreja foi feita não para ser um fim em si mesma mas a serva da missão de Deus no mundo.

Pelo final da década de 60, emergiu no movimento ecumênico um consenso geral de que os problemas eclesiológicos poderiam somente serem resolvidos ao ir primeiro além da igreja e fazendo a pergunta sobre a missão de Deus no mundo. Teólogos falaram da igreja em termos funcionais, como um projeto – um caminho de obediência que deve ser continuamente moldado dentro da situação particular na história sob a luz do propósito derradeiro de Deus para a história. Eles afirmaram que o papel da igreja não era atrair o mundo para dentro da ordem da igreja.

Nós devemos parar de pensar na salvação derradeira do mundo como um processo no qual o Senhorio de Cristo sobre o seu Corpo é expandido até que enfim ele atrai o mundo inteiro para dentro do seu domínio. A igreja é a serva da luta de Cristo para trazer nova vida às comunidades do mundo, à Sua criação como um todo. A luta para revelar o Senhorio de Cristo sobre sua criação deve ser relacionada às verdadeiras lutas do povo nas estruturas sociais e políticas de nosso tempo. A igreja pode ser a igreja somente sendo a comunidade da obediência a Cristo dentro das estruturas de vida onde a existência humana já é encenada. “A Casa de Deus não é a Igreja mas o mundo, onde a Igreja habita e trabalha como sua serva.”

Colin Williams faz a pergunta: “aonde devemos procurar pela Igreja?” Ele diz que a igreja é um evento; é onde o povo de Deus toma a forma de servo ao redor das necessidades e esperanças do mundo – como servos de Cristo e portanto servos da humanidade. Isto significa que [a] igreja é chamada para se mudar para dentro do mundo como Cristo ainda se move no mundo. Cristo não veio como alguém despejando respostas pré-estabelecidas, aquele que traria uma ordem eterna imutável para dentro de nossa ordem temporal mutável. Ele veio como um participante integral na história. Ele veio como alguém cuja liberdade foi sua completa liberdade para as necessidades do mundo, mudando-se de detrás das barricadas da segurança e ordem assumidas para estender a mão para os excluídos [da] comunidade, criando [a] força do amor servil.

[…] Em várias partes do mundo hoje [1966], a Igreja representa uma minoria relativamente pequena, participando na luta pelo futuro do homem lado a lado outros movimentos religiosos ou seculares. Ainda mais, ela pode esperar contribuir para a transformação do mundo somente na medida em que ela própria for transformada em contato com o mundo.

Leia +. (em Inglês)

fonte: De Edinburgo a Salvador: Missiologia Ecumênica do Século XX por T.V. Philip (trechos selecionados)
Tradução: Gustavo K-fé Frederico

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