O que Ana Paula Valadão pode ensinar à CNBB?

Há algumas semanas católicos de todo o Brasil – inclusive sacerdotes – começaram uma campanha de difamação da imagem da cantora e pastora protestante Ana Paula Valadão Bessa. Por ter revelado sua completa ignorância sobre o catolicismo, durante um show, expressando seu desejo de conversão para a vida de padres e seminaristas e se referindo ao culto a Nossa Senhora como “mariolatria”, a cantora foi alvo de manifestações carregadas de intolerância em blogs católicos, twitters, fóruns de discussão, orkut. Manifestações motivadas especialmente por uma frase que Ana Paula nunca disse: ela foi acusada falsamente de “profetizar” a queda do catolicismo.

Não foi a primeira vez que católicos levantaram-se em perseguição à cantora protestante movidos por um mal-entendido. Em 2004 o artigo do cantor católico Walmir Alencar, Católicos Diante do Trono?, foi o estopim para o ínicio de protestos contra Ana Paula Valadão. No artigo o cantor se queixa do fato de uma famosa cantora evangélica” lamentar que músicas da autoria dela fossem usadas por católicos em momentos de adoração à Santa Eucaristia.

Os católicos que souberam do artigo de Walmir Alencar acreditaram que a personagem cujo nome não foi citado no texto era Ana Paula Valadão, provavelmente por causa do título do artigo, uma referência ao nome do grupo da cantora, o Diante do Trono. A situação tomou proporções tão sérias que o cantor católico se obrigou a realizar um encontro com a pastora, em Belo Horizonte (MG), para pedir-lhe perdão por todo o mal-entendido gerado pelo artigo.


Novembro de 2004: Walmir Alencar encontra-se com a batista Ana Paula Valadão e os pais dela para pedir perdão.

Por sua vez, Ana Paula Valadão agradeceu a iniciativa de Walmir Alencar e afirmou não ter feito qualquer declaração ofensiva aos católicos que ela também considera cristãos – diferentemente do que pregam os protestantes anti-católicos:

Apesar de falsas, as polêmicas fabricadas em torno da cantora protestante atrapalham a abertura que ela tem com os católicos. E servem, infelizmente, para criar uma caricatura de alguém que apesar de toda sua ignorância sobre o catolicismo, respondeu – ainda que timidamente – ao diálogo ecumênico.

Para além da caricatura Ana Paula Valadão é, por exemplo, uma liderança pró-vida. Ao saber dos casos de infanticídio comuns em algumas tribos indígenas do Brasil – que sacrificam crianças de 5 anos de vida -, ela decidiu apoiar a ONG Atini, que trabalha com sobreviventes de infanticídio. No vídeo postado logo no início deste texto vemos a cantora divulgar o projeto de apadrinhamento desses sobreviventes.

Não tenho notícia de nada parecido no meio católico. Ao contrário! De acordo com registro do site de notícias Amazônia o secretário-adjunto do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão ligado à Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), declara que a prática dessas tribos, trata-se tão somente da “interdição da constituição do ser humano”, mas nunca de infanticídio:

O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano”. – Saulo Feitosa, secretário adjunto do CIMI.

As palavras de Saulo Feitosa são melhores compreendidas em entrevista que ele mesmo concedeu à secretaria de comunicação da Universidade de Brasília a respeito da dissertação de autoria dele Pluralismo Moral e Direito à Vida: apontamentos bioéticos sobre a prática do infanticídio em comunidades indígenas do Brasil. Leia o que Saulo pensa sobre o infanticídio indígena:

A dissertação não defende o infanticídio, mas a legitimidade da autonomia desses povos. O que acontece nas comunidades indígenas são ‘interditos de vida’ antes que o nascimento ocorra, já que o nascimento em alguns povos é cultural.”

Em outras palavras… Para o secretário-adjunto da entidade ligada à CNBB o infanticídio em tribos indígenas é algo meramente cultural e intervir na prática é desrespeitar as tradições desses povos.

Veja bem… Saulo não defende o infanticídio, mas acredita que somente os povos indígenas podem – se quiserem – terminar com essa matança “meramente” cultural. Ora… O que está dizendo o católico Saulo? Que o trabalho de ONGs como a Atini, prestigiada por Ana Paula Valadão Bessa, é que é errado! Que o trabalho tem ares de crime de “imposição de valores morais da cultura invasora sobre a cultura invadida“.

E o que faz essa ONG? Cuida de crianças que sobreviveram a uma tentativa de infanticídio! Se não fosse pelo trabalho da Atini provavelmente o Brasil nem soubesse o que os missionários do CIMI já sabiam há tempos: que há tribos indígenas que matam suas crianças em rituais meramente culturais.

Sobre o infanticídio indígena, o que dizem os católicos tão preocupados com o uso da música de Ana Paula Valadão Bessa na Igreja Católica? O que dizem eles (tão ágeis em sua comunicação por blogs, twitters, orkut, listas de discussão e etc) a respeito de uma entidade católica, o CIMI, ter entre seus coordenadores um homem que usa o nome da Igreja Católica para se opor ao trabalho de quem quer salvar a vida de crianças indígenas de rituais de sacrifício humano?

Não sei de qualquer ação pública da CNBB punindo esse senhor, advertindo o CIMI e dando explicações sobre o que pode ser um gesto de acobertamento, por parte de missionários ligados à Igreja Católica no Brasil, de práticas de infanticídio indígena.

Se é preciso tomar partido, mais uma vez estou do lado de Ana Paula Valadão que nos ensina a todos ser a defesa da vida humana uma ação coerente com o cristianismo. Ao contrário do que desconversam certos missionários vergonhosamente católicos.

Wagner Moura, no blog O Possível e o Extraordinário.

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