O bom homem Jesus e o canalha Cristo

O novo livro de Philip Pullman já está a causar polémica entre os católicos, ao pôr em causa as bases fundadoras do Cristianismo e da Igreja Católica enquanto instituição. O autor da trilogia “Mundos Paralelos” (Presença), que já foi adaptada ao cinema e que já constituía uma imagem crítica da instituição Igreja, assina agora “The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ”, que é lançado esta semana em Inglaterra.

Philip Pullman, britânico de 63 anos, é o autor da trilogia “Mundos Paralelos” (“A Bússola Dourada”, “A Torre dos Anjos” e “O Telescópio Âmbar”), em que caracteriza a Igreja Católica como uma burocracia corrupta e assassina e Deus como senil, frágil e impotente.

No novo livro “The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ” (O bom homem Jesus e o canalha Cristo), Pullman escreve que Maria era uma jovem inocente que foi visitada por um estranho que dizia ser um anjo. Depois dessa visita, deu à luz dois gémeos, Jesus e Cristo. Jesus é um orador apaixonado e carismático, que acredita que o reino de Deus está iminente, ao contrário do perturbado Cristo, que acredita na necessidade de uma Igreja e de uma História organizadas. Secretamente, Cristo regista e embeleza os ensinamentos do irmão, mas um estranho, que quer usar os ensinamentos controversos e as crenças de Jesus como o ponto principal de uma nova religião controlada por uma organização poderosa e rica chamada Igreja, impele-o a trair Jesus.

No domingo, na apresentação do livro no Festival Literário de Oxford, Pullman admitiu que as pessoas poderiam sentir-se ofendidas por ele. “Ninguém força ninguém a pegar no livro e a lê-lo, ou depois de o ter lido, a gostar. Se não gostarem, podem sempre escrever-me ou ao editor, ou podem escrever o vosso próprio livro. Ninguém vos impede”, disse o autor ao “Independent”. Quando, na conferência, um participante disse que os cristãos iam ficar perturbados por ouvir designar Cristo como um “canalha” (“scoundrel”), Pullman respondeu: “Eu sei que é uma coisa chocante de dizer, mas ninguém tem o direito de viver sem se chocar. Ninguém tem de ler este livro… e ninguém tem o direito de me impedir de o escrever”.

Pullman recebeu cartas violentas de pessoas que o acusavam de blasfémia antes mesmo de o curto romance chegar às lojas. “As pessoas ficam ansiosas em meu nome. Não querem que eu vá para o Inferno. É simpático da parte delas preocuparem-se mas eu vou ignorá-las”, disse Pullman ao jornal “Guardian”. O escritor foi à conferência acompanhado de vários seguranças. “O mundo é um lugar estranho e está a ficar mais estranho ainda”, disse Pullman sobre as medidas de segurança.

Para escrever este livro, o autor leu várias versões da Bíblia, as epístolas de S. Paulo e alguns evangelhos que não fazem parte do cânone bíblico. “Não mudou a minha ideia”, disse Pullman. “Sou ateu. A diferença entre Jesus e Cristo na minha história é que Jesus era real e Cristo é ficção”. Pullman disse ainda que simpatizava mais com Jesus do que com Cristo na sua história, embora Cristo partilhasse com ele a paixão por histórias. Este livro “é uma história sobre como as histórias se tornam histórias”, disse.

No livro, Jesus condena a ideia de uma Igreja e Pullman disse ao “Guardian” que concorda. “Nessa parte, ele está a falar por mim. Claro que eu não condeno o pensamento especulativo ou a organização de pessoas para as ajudar a praticar o bem, ou montar hospitais ou dar abrigo a viajantes estrangeiros ou dar educação às pessoas. Mas recentemente temos visto como alguns aspectos de tudo isto podem correr mal. As pessoas podem abusar do poder”.

Fonte: Ípsilon (revista eletrônica portuguesa)

O periódico The Guardian publicou parte do primeiro capítulo do livro aqui (em inglês).

O livro não tem previsão de lançamento no Brasil. Porém, na Inglaterra foi considerado “o livro da semana”. Na sua resenha para o Guardian, o Arcebispo da Cantuária (autoridade máxima da igreja anglicana) apontou o que não parece ser óbvio no livro: o “canalha Cristo” seria na verdade Judas.

Curioso? Veja o texto aqui (em inglês).

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