Estenda a mão e coloque-a no meu lado!

Hoje é Páscoa. É o momento único e definitivo do Deus da Vida e do Amor.

Hojé é o dia da Ressurreição de Jesus, fato fundamental e a razão de ser do cristão. Diz bem o Apóstolo Paulo quando afirma: “Se Cristo não ressuscitou, vã a pregação, vã nossa fé (1 Cor 15,11).
Sabemos, no entanto, que o momento da ressurreição não fora representado até então pela arte cristã, mas entendido metaforicamente na cena das mulheres no sepulcro, tal qual é descrita nos Evangelhos de Mateus 28,1-8; Marcos 16,1-8; Lucas 24, 1-11 e de João 20,1-18.
A lição deste momento crucial será traduzida erroneamente pela tradição popular como: NOLI ME TANGERE (Não me toques! Cf. Jo 20,17). Isto fortalece, entretanto, um distanciamento demasiadamente enérgico como o vemos esculpido na Catedral românica de Tudela e pintado nas telas de Giotto di Bondone (1266-1337), Julio Romano (1499-1546) e Correggio (1525), apresentando um Jesus Ressuscitado que busca apartar-se, distanciar-se de quem tanto o amou.
Será Piero della Francesca (1416-1492) que apresentará por primeiro o ato mesmo da vitória sobre a morte: Cristo elevando-se com uma bandeira esvoaçante de dentro do sepulcro. El Greco (Domenico Theotocopoli 1541-1614) irá agudizar a verticalidade do Ressuscitado acompanhando-a dos braços e corpos tensos dos guardas apontando para o alto.
A lição é esta: NOLLI ME TENERE (Pare de me segurar! Cf. Jo 20,17), assume o original sentido do evangelho joanino: não me entretenhas, não me segures, não me detenhas, dita a Maria Madalena (aquela bela mulher do perfume caríssimo) depois de um profundo encontro de Amor e Verdade mas recordando que não podia ficar ali indefinidamente.
Há aí a predileção de quem ama e é amado (amor horizontal) e também o adeus de quem parte e é bem compreendido de forma livre pelo outro. É este amor generoso, amor vertical, amor gratuito que gasta tudo com perfumes para o seu Amado, tal como o vemos esculpido na obra audaz de Auguste Rodin (1892).
Diz o poeta Rilke comentando a escultura em 1902: “Ela o envolve com um movimento desconsolado e suplicante e, com um gesto de desamparo, solta os cabelos para mergulhar neles o coração atormentado de Cristo.”
O relato tocante de Tomé, depois conhecido como relato da dúvida tem um outro matiz de uma tangibilidade emocionante e atual. A prevenção desaparece e a proximidade se torna intima e radical. Como que uma carícia pedida pelo Ressuscitado. Um toque de amor, uma verdadeira unção como aquela de Betânia.

Vemos o forte quadro “INCREDULIDADE DE SÃO TOMÉ”, pintado por Mathias Stomer (1600-1650) com dois dedos enfiados na chaga lateral do Ressuscitado. Ficamos incomodados com a tamanha crueza do gesto do discípulo. A lição é esta: “Infer digitum tuum huc et vide manus meas et affer manum tuam et mitte in latus meum, et noli fieri incredulus sed fidelis (Cf. Jo 20, 27)”. Eis a bela tradução do que o Ressuscitado diz a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e coloque-a no meu lado. Não tenha pouca confiança, confie!.”

Aqui estamos próximos d’Ele. Depois do toque solicitado, pedido e insistente, veio a fé do incrédulo, e depois a ceia compartida e ainda o desafio da missão evangelizadora. De Tomé será pedida a fidelidade dos que não viram mas creem. De quem crê em mulheres e apóstolos. Em Madalena, Pedro, Tomé e João. É preciso tocar com fé, é preciso amar Jesus ao vê-lo e ser amado por Ele sem vê-lo. É preciso vencer o ateu que vive dentro de nós, escondido dentro de nossa própria casa. Não haverá lugar para o cético se houver esperança na vida. Afinal, somos todos gêmeos de Tomé.
Queremos dizer que Jesus é o Senhor, mas temos medo e falta-nos confiança. A prova da Ressurreição é o ato de fé e esta vida nova recebida gratuitamente em Cristo, por Cristo e com Cristo. A força do Cristo Jesus nos tira da morte tal qual vemos no afresco do Monastério Santo Salvador em Chora, Istambul, arrancando do vale da morte pelos pulsos a Adão e Eva.
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Este ícone da Anastásis (Ressurreição) do século XIII sugere que o ícone, não é sobre a salvação, mas sobre a divinização. Adão e Eva estão sendo puxados para a vida divina da Santíssima Trindade, divinizados pela ação de Cristo. O amor de Cristo nos arranca dos abismos. De seu lado jorram vida e amor. Ele é o Ungido e nós somos seus amigos. Nós que havíamos plantado Jesus na terra como trigo moído e esmagado, agora vemos o Pai ressuscitá-lo e desta nova Vida vemos brotar centenas de espigas, frutos do amor, da ternura e da misericórdia. Somos mais que chamados, mas puxados, arrancados! Somos levados para Deus por Cristo na força do Espírito.
Assim recitei ainda criança esta sequência pascal ensinada por minha avó materna:

“A morte e a vida lutaram admiravelmente: o Senhor da vida reina vivo depos de morto. Diga-nos tu, Maria: que viste pelo caminho? Vi o sepulcro de Cristo vivo e a gloria do Ressuscitado. Vi anjos que mo asseguraram; vi o sudário e os lençois. Ressuscitou Cristo, minha esperança: e os precede na Galiléia. Sabemos que Cristo, em verdade, ressuscitou de entre os mortos: tu, oh Rei triunfante, tem misericórdia de nós. Amém. Aleluia!”

Os bizantinos cantam em sua liturgia milenar:

“Dia da Ressurreição! Povos rejubilem-se de alegria, é a Páscoa do Senhor! Da morte À vida e da terra aos céus, o Cristo Deus nos conduz a todos nós que cantamos o hino da vitória. Que o céu se regozige, que a terra esteja na alegria, que o mundo faça festa, todo o mundo: o visível e o invisível. Pois, Cristo ressuscitou, Ele, a alegria eterna. Da morte, celebremos a destruição e do inferno, a ruína. Da nova vida imortal cantemos com vigor o Autor. Uma Páscoa sagrada nos apareceu hoje: Páscoa nova e santa, Páscoa mística, Páscoa puríssima, Páscoa do Cristo, nosso libertador, Páscoa imaculada, Páscoa grandiosa, Páscoa dos que creem, Páscoa que nos abre as portas do Paraíso, Páscoa que santifica todos os fiéis. È o dia da Ressurreição! Abracemo-nos uns aos outros. Digamos: ‘Irmãos’, mesmo para os que nos odeiam. E cantemos: Cristo ressuscitou de entre os mortos.”

Lembro que certa feita na inesquecível comunidade de São Mateus, na periferia da zona Leste, pelos idos dos anos oitenta, ao preparar a Vigília Pascal pensamos em fazer uma surpresa para o povo das comunidades naquela noite especial. Pedimos a um pequeno menino que ficasse dentro de um imenso ovo feito de papelão, até a hora do canto do Exultet e que o rompesse com suas mãos rasgando o invólucro que o envolvia, gritando forte no meio de toda a Igreja: “Cristo ressuscitou, Aleluia!”
Assim cantaríamos o hino depois do grito na hora por nós marcada previamente. Mas, eis que passados alguns minutos dele dentro do ovo e sem muitos furos para oxigenar aquele ambiente escuro e sem saber bem a que hora sairia, ele rasga todo o papel, dizendo em alta voz: “Eu não aguento mais, é hora de ressuscitar. Cristo venceu, Aleluia! Ufa, que bom que minha mãe está aqui. Agora estou feliz! Acabou o sufoco, desculpem a pressa, mas lá dentro é muito ruim!”.
Amigos e amigas, desejo-lhe uma Santa Páscoa nesta manhã alegre. Apressada, alegre, vigorosa. Cantada, rezada, tocada e celebrada. Saindo dos ovos, das tumbas, das dores e sentindo os perfumes, as cores e os sabores da Ressurreição.
Convido-os a que estendam suas mãos, toquem o lado, sintam Deus e sintam a vida que jorra do coração.
É deste modo tocante que a poetisa espanhola Isabel Llorente Casado nos ensina a celebrar a Páscoa:
“Si tus manos están dispuestas a dar lo poco que pueden, ábrelas.

Si tus labios sólo se abren para hablar com cariño, jamás los cierres.

Si tu calor es lo único que puedes compartir, eso no es poco.

Si tus valores los cuidas y los compartes, eres muy grande.

Si tu meta es vivir junto a Mi Amigo, enséñame a vivir contigo.”

Fernando Altemeyer, teólogo e mestre em ciências da religião pela Universidade Católica de Louvain e doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP.

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