O céu que não parece inferno

Alguém estava confundindo muito as coisas e minha esperança era de que não fosse eu. Na mornidão daquela saleta amontoava-se mais de uma dúzia de crentes. A dona da casa nos contou a história de uma briga entre ela e a vizinha e terminou dizendo:

– Deixe estar. Na volta de Jesus para nos buscar, aquela idólatra vai ficar bem aqui me olhando subir e eu ainda vou dar tchauzinho.

Algumas pessoas riram animadas, outras solenemente disseram amém. Eu não disse nada. Senti foi um aperto na boca, como quando se come banana bem verde. Nunca esqueci aquela noite. Todas as pessoas presentes se diziam seguidoras de Jesus, mas ao céu delas eu não queria ir nem de visita. Imaginei uma mesa posta e gente glutona comendo coxões de frango e tortas de chocolate, achando o máximo perceber que a sua volta, separada por uma cerca elétrica, uma multidão de famintos assistia à cena. Parecia um clube ruim. Lembrava mais o inferno.

Tenho sérias dificuldades com gente que quer o céu só para si e para sua turma. Eles batem no peito e arrotam agradecendo o privilégio de estarem do lado de dentro da cerca. Sentam suas ancas largas em cadeiras confortáveis enquanto miram aqueles olhos de fome do lado de fora e dizem uns aos outros:

– Antes eles do que nós. Brindemos à nossa sorte.

O céu que imagino não é assim. Para mim, céu começa quando a cerca acaba. Céu são coxões de frango e tortas de chocolate sem fim para os meninos barrigudinhos do sertão das Gerais. Céu é chocolate quente para quem quiser, em noites de inverno. É jaqueta quentinha para quem tiver frio. Ser parte de um grupinho que se aquece enquanto o mundo inteiro sente frio eternamente não pode ser céu, parece o inferno.

Céu é paz de criança mamando na mãe. É a plenitude de ter o rosto do amado nas mãos. É a alegria do reencontro de velhos amigos, pai e filho, filha e mãe, irmão e irmã. Céu é quando o Chico recebe de volta a metade arrancada de si. É quando o trem do Milton, que viaja pra capital, para na cidade de fim de mundo porque Pinduca acenou.

Há quem diga que a idéia de um céu universal destrói toda a noção de justiça. Acho que estão confundindo justiça com vingança. A vingança perpetua a lógica injusta de que sempre precisa haver um vencedor e um perdedor. O que ela faz é apenas inverter a ordem no melhor estilo “um dia é da caça, o outro é do caçador”. Justiça não é transformar o pobre em rico e o rico em pobre, nem é dar a arma pra vítima atirar na cabeça de quem a matou. Nada disso é justiça; é vingança. Justiça mesmo é quando todos – ou são todos ou não é ninguém – recebem a misericórdia e a aceitação do Senhor de Todas as Coisas, lembrando que Ele mesmo, sendo justo e pleno, decidiu esvaziar-se de sua glória e viver neste mundo injusto, e para seu banquete convidou os mais desprezados seres da Terra, gente que não clamava pelo nome de Deus nem seguia as leis de Moisés, dando a entender que de sua mesa farta farão parte tantos quantos tiverem fome e sede.

Céu é choro e riso de arrependimento e é choro e riso de perdão. Céu é justiça e igualdade. Em um céu de verdade mesmo, se um ganha todo mundo ganha. Se perde, todos perdem. É o fim da baba do egoísmo e da vingança. Céu que é céu não aceita cercas elétricas e pessoas famintas do lado de fora.

Ana Cristina Mendes Gontijo, no Notas de aprendiz.
dica do Rondinelly Gomes Medeiros

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