Quando o cigarro salvou a vida deles

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência…

Lenine – Dudu Falcão

Só para constar, esclareço: não fumo. Aliás, nunca fumei. Tampouco curto fumaça de cigarro, charuto, cachimbo ou qualquer outra coisa enrolada que queime na extremidade. Definitivamente, não é minha praia.

Isso não me impede de conviver muitíssimo bem com meus amigos fumantes. Temos estima suficiente e regras tácitas que permitem o respeito às nossas diferenças respiratória, sem caras feias e brigas, nem conselhos carregados de reprovação. Aliás, patrulhamento nunca foi o meu forte, nem no consultório nem na vida particular.

Dentre as muitas histórias da vida real sobre fumantes e tabagismo colecionadas nestes anos, há duas que (os mesmos amigos) sempre me pedem para repetir.

A primeira foi a de um rapaz de 35 anos descrevendo, durante a consulta, como era sua vida desde os 11 anos de idade. Fumava um maço e meio por dia há 24 anos. Mesmo reconhecendo ter começado muito cedo, ele tinha a convicção de que o cigarro o tinha salvado da morte, e explicou o porquê.

Pertencia a um grupo de garotos “barra-pesada” do bairro que, muito novinhos, começaram experimentando a dobradinha: cigarro e cerveja.

O que para os outros era somente farra de final de semana, virou uma válvula de escape diária para suas ansiedades adolescentes, de modo que, nos meses seguintes, quando a turma passava para coisas mais ‘interessantes’, ele ficou só no cigarro , ainda assustado com a dependência que havia desenvolvido até então. Foi chamado de “careta” e não quis experimentar mais nada. Os outros foram mudando de estágio mais ou menos de 6 em 6 meses: maconha, bebidas com teor alcoólico mais elevado, anfetaminas, cocaína, crack.

Com 13 anos perdeu o primeiro amigo, metido em briga por causa de drogas. Aos 15 perdeu outros três, aos 18 anos, com seu eterno cigarro na mão e um medo danado de se meter com outras substâncias, já estava sem 80% dos amigos da infância. Agora, aos 30 e poucos, não havia outra testemunha, exceto ele mesmo: o único sobrevivente. Sobrevivera por causa do cigarro. Foi assim que ele explicou como estava vivo até aquele momento.

A segunda história foi a do empresário brilhante e perfeccionista que ia defender seu doutoramento no exterior dali a 1 mês.

Resolveu entrar em um programa anti-tabagismo às vésperas da viagem e iniciou acompanhamento com um psiquiatra badalado da cidade. Este imediatamente prescreveu, além dos adesivos de nicotina aplicados sobre a pele, uns 3 ou 4 moduladores de humor (um para ansiedade, um para depressão, um para combater os efeitos colaterais do primeiro e outro para conseguir dormir com essa salada).

Infortunadamente, a noiva do sujeito deu-lhe um belo adeus nesse interim, de modo que, durante uma noite tenebrosa e cheia de pesadelos após o desenlace, ele adormeceu e acordou de madrugada, nervosíssimo. Para se acalmar, fumou compulsivamente 2 maços de cigarro no automático. Esqueceu de retirar os adesivos de nicotina do dia anterior e ainda resolveu colocar novos adesivos pela manhã. Aí foi trabalhar.

Às 9:30 da manhã ele entrou em nosso consultório com arritmia, taquicardia e um pré-infarto por overdose de nicotina .Foi levado na ambulância do Hospital Pro-Cardíaco e só foi liberado 4 dias depois, à véspera da defesa de tese. Queria recomeçar imediatamente o tratamento à base dos calmantes, mas recusei suporte profissional. Definitivamente não era a hora para aquilo.

Recomendei-lhe que suspendesse por ora o tratamento anterior – adesivos e os 4 remédios de tarja preta – e que voltasse a fumar como antigamente até o fim da tempestade emocional. Que ainda não tentasse no final de ano, por causa dos festejos de Natal e Revéillon. Também adiasse no Carnaval. Digamos que só devesse voltar para conversarmos sério em abril, quando o coelhinho da Páscoa já teria provavelmente ido embora. Até lá, quem sabe, a parte afetiva também teria se desenrolado.

Dito e feito. Voltou 5 meses depois. Com namorada nova, um pouco de terapia, sem uso de adesivos de nicotina nem Frontais da vida, abandonou o cigarro em menos de um mês e, mais importante, entendeu que seu problema primordial não era o tabagismo, mas sua ansiedade gigante. Também entendeu que até existe hora certa para abandonar coisas arraigadas há tanto tempo, sejam elas boas ou ruins.

Adoro essas histórias reais. Com elas aprendo o tamanho da nossa fragilidade. Uns fumam demais, bebem demais, comem demais, abusam dos analgésicos, abusam do telefone, abusam da internet, da TV. Guardamos rancores.

Não devolvemos o que nos emprestaram, invariavelmente nem nos importamos. Negligenciamos nossa postura, negligenciamos nossos familiares,não cuidamos dos dentes como deveríamos, dormimos menos do que precisamos, não exercitamos nossos músculos e articulações. Descarregamos nossas frustrações às pessoas que menos merecem isso, normalmente as que mais nos amam. Temos culpa e nos confessamos, mas invariavelmente reincidimos nas mesmas falhas. Usamos variados tipos de muletas para não estapear o chefe ou sangrarmos aquela úlcera gástrica. Criamos rituais mágicos para combater a ansiedade usando o cigarro, o café ou uma oração supersticiosa.

Você conhece alguém absolutamente saudável, física e emocionalmente? Eu não. Por isso entendo que o primeiro problema a ser ‘tratado’ não é o cigarro, a bebida ou outros escapes. Preciso de sabedoria para ver o que está lá na alma, o que está por trás. A causa – que ninguém vê – não a conseqüência exposta.

Precisamos de mais compaixão e menos julgamento. O mundo não espera de nós um prognóstico negativo, mas um pouco mais de amor, e como canta Lenine: ’um pouco mais de paciência’.

Helena Beatriz Pacitti, no Timilique!

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