Oração a bordo

“Uma sociedade sem religião é como um navio sem bússola.”
Napoleão Bonaparte

De dois anos para cá cruzeiros tematizados passaram a ser uma alternativa mais que interessante para as empresas que trazem os navios para a costa brasileira. E a tendência é que continuem crescendo e abrangendo diferentes tribos por afinidades clubística, espiritual, religiosa, musical. Só que as empresas responsáveis têm que mudar seu comportamento. Ou bloqueiam viagens específicas para as pessoas com o mesmo grau de interesse pelos temas, ou mais que avisam os demais passageiros que física e emocionalmente, dependendo do tema prevalecente, sua movimentação no navio sofrerá restrições.

Se faltava algum exemplo de que mais cedo ou mais tarde ia dar problema, agora não falta mais. Diferente do que aconteceu numa comédia do cinema americano onde um grupo de turistas desavisados embarcou numa excursão de homossexuais, no dia 18 de janeiro de 2010 um grupo de turistas, também desavisados, embarcou no Vision of the Seas, da Royal Caribbean, para um cruzeiro de muita alegria e diversão, e descobriu, já ao entrar no navio, que a maioria dos passageiros – 850 –, eram cristãos da Renovação Carismática Católica, que embarcaram no cruzeiro para rezar, meditar e viver sua fé.

De volta da viagem, os turistas desavisados botaram a boca no trombone e foram reclamar com a imprensa. Falando ao caderno Cotidiano da Folha, um dos passageiros de 30 anos desabafou: “A gente embarcou no dia 18 achando que ia se divertir pra caramba… foi o cruzeiro mais chato da minha vida”. Uma outra passageira, Isabel Carvalho, 51 anos, coberta de razão, reclamou: “Quando compramos o pacote, ninguém nos avisou que embarcaríamos no mesmo navio de um tal cruzeiro ‘católico’… Ficou estranho demais. Logo que subimos a bordo, estava um calor incrível e resolvemos tomar um banho de piscina. Não deu. Vieram nos avisar que, bem ali, no deck da piscina, seria realizada a primeira missa do cruzeiro…”. “Ninguém se sentia à vontade para ficar em trajes de banho enquanto se falava do corpo e do sangue de Cristo”.

Já Marilda Torres, 57 anos e católica, também protestou: “Jesus na piscina? Eu sou católica mas acho que igreja é igreja e navio é navio. Misturar as duas coisas é complicado. Eles olhavam feio se a gente estava de biquíni, se tomava bebida alcoólica, se falava alto, se jogava no cassino, até mesmo se ria…”.

Nada contra os cruzeiros religiosos e temáticos, mas as empresas responsáveis por eles deveriam ser infinitamente mais cuidadosas e responsáveis mesmo. Não faz o menor sentido juntar num ambiente fechado e restrito, por maior que sejam os navios, metade de passageiros que quer meditar, orar, refletir, e a outra metade que foi lá para cair na gandaia.

Em síntese, a Royal Caribbean vendeu gato por lebre para os dois grupos. Os dois deveriam pedir ressarcimento.

Francisco A. Madia, no Propaganda & Marketing.

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