Desafios modernos ao Cristianismo

“TEMOS CONSCIÊNCIA DA NOSSA FRAGILIDADE COMO SERES HUMANOS, MAS AO MESMO TEMPO POSSUÍMOS A COMPREENSÃO DE NOSSA FORÇA QUANDO ESTAMOS UNIDOS PELA COMPAIXÃO, ESTA DEVE SER A MENSAGEM PRINCIPAL DA IGREJA PARA A HUMANIDADE” PADRE STEPHEN BOYLE, REITOR DO COLLEGIO SANT NORBERTO DE ROMA

O sociólogo italiano Enzo Pace (2007) afirma que a religião, como fonte distribuidora de referências no mundo, está em crise. Ele avalia que as instituições religiosas não são mais fontes propagadoras de sentido e imagens estáveis, cujas autoridades tinham o poder de provocar um sentimento de estabilidade diante das incertezas. Atualmente, de acordo com o sociológico, as instituições religiosas perderam a capacidade de apresentar certezas. Essa constatação poderia ser compreendida como falência dos mecanismos de reprodução simbólica e, por consequência, como o anúncio do fim da religião. A antropóloga e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião – Iser, Regina Novaes, aponta para uma constatação diferente da apresentada por Pace. Ela observa que “na realidade as pesquisas acadêmicas e a mídia de forma geral apontam que a religião está muito presente tanto na esfera pública quanto na biografia concreta de milhões de pessoas que buscam um sentido religioso fora, à margem ou dentro de sua religião de origem” (Novaes, 2006, p.136).
Franco Giovanelli aponta que o individualismo excessivo, traço marcante do ser humano da modernidade, é uma forte ameaça. Para ele, enquanto o princípio que norteia o cristianismo é o da doação, a lógica individualista busca maximizar os ganhos e reduzir as perdas provocando um egoísmo e uma forte tendência hedonista. Giovanelli diz que “o ser humano tem buscado ampliar seus ganhos individuais além de realizar uma constante busca pelo prazer pessoal a todo custo, o que suprime o sentimento religioso, esmagando a proposta cristã de doação ao próximo, caridade e abnegação. Toda essa conjuntura é um desafio à Igreja do século XXI”.

Dentre os desafios enfrentados pelo catolicismo neste século atual se destaca o crescimento vertiginoso das igrejas protestantes e outras denominações religiosas que, ano após ano, ganham adeptos que anteriormente eram católicos. Muitas igrejas abandonam o tradicionalismo e rompem com antigos preceitos religiosos para atrair seguidores no “mercado de féis”. A acelerada mudança comportamental observada desde a segunda metade do último século é outro ponto a que as autoridades eclesiásticas católicas estão atentas. Muitas das alterações ocorridas no padrão de comportamento de homens e mulheres, iniciadas no século passado, são contrárias às normas e orientações da Igreja. Como exemplos pode-se citar a adoção de meios contraceptivos, a maior liberdade sexual e a aprovação da lei do divórcio. Mesmo em países cuja população, em sua maioria, é católica, como Espanha, Brasil e Itália, o catolicismo vem perdendo parte de sua capacidade de influenciar comportamentos.

Integrante e organizador do movimento Testemunhos da Ressurreição para o 2º Milênio, ligado à Congregação dos Salesianos, com sede em Roma, Franco Giovanelli afirma que a religiosidade e a fé, neste início de milênio, são ainda mais importantes do que em outros tempos. De acordo com ele, é notável a desagregação da família, instituição necessária para a estabilidade social, e dos valores éticos e morais, necessários para a manutenção da ordem. Giovanelli pontua que a falta de referências pode fazer com que os seres humanos retornem ao estado de natureza no qual, segundo a concepção hobbesiana do século XVII, os indivíduos viviam isolados e em luta permanente, vigorando a guerra de todos contra todos. Daí a expressão “o homem lobo do homem”. No entendimento do salesiano, “a religiosidade pacífica estabelece normas e cria condições para o rompimento com a indiferença gerada pelo individualismo, e a consequência de tudo isso é a solidariedade”. O professor de Sociologia da Religião da Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, Joze Bajzek, cita que “na era pós-industrial a racionalização econômica se tornou o valor supremo dos seres humanos, a ideia de desenvolvimento ficou restrita à esfera econômica, e a riqueza passou a ser definida unicamente como acumulação de capital, desta forma a vida é observada em uma única dimensão” (Bajzek, 2006, p.173). Giovanelli considera que compreender os humanos analisando prioritariamente o ponto de vista econômico é destituí-lo de significado mais abrangente e reduzir sua dimensão.

O sacerdote americano Timothy Joseph Ring, integrante da Associação Internacional de Direito Pontifício Arautos do Evangelho, em Roma, diz que a religiosidade cria nas pessoas um sentimento de esperança, mesmo que elas habitem em uma sociedade marcada pelo crime, violência e decepções, pois, para os que têm fé, as ações pessoais são orientadas para o serviço, despojamento e solidariedade fraterna. De acordo com o sacerdote, “aquele que acredita e pratica sua espiritualidade cristã se eleva acima das trivialidades cotidianas, criando uma nova dimensão para sua vida, além dos valores materialistas e extremamente racionais que marcam o mundo atual”. Giovanelli ainda considera que a racionalização e o materialismo da sociedade moderna podem corroer sentimentos como a esperança e a crença em uma sociedade solidária, provocando a morte de utopias.

Na avaliação do reitor do Collegio San Norberto, de Roma, Padre Stephen Boyle, a Igreja, mesmo estando em constante choque com alguns valores modernos e co-existindo com a ditadura do relativismo, representa destacado significado no mundo secularizado. De acordo com o reitor, o cristão deve buscar uma coerência máxima entre a fé professada e a vida cotidiana, por isso deve sair do isolamento e buscar uma existência orientada pela compaixão. Boyle avalia que “a solidariedade é o cerne da mensagem de Cristo. Temos consciência da nossa fragilidade como seres humanos, mas ao mesmo tempo possuímos a compreensão de nossa força quando estamos unidos pela compaixão, esta deve ser a mensagem principal da Igreja para a humanidade”.

A tradição diz que a Igreja teria sido fundada por Jesus Cristo ao dar a Pedro, seu apóstolo, as chaves para ligar e desligar, na terra e nos céus. Se isso é mesmo uma verdade, cabe a cada um decidir. Na era da secularidade, do relativismo, do individualismo e do consumismo, a palavra da Igreja ainda encontra refúgio. Por quanto tempo essa instituição permanecerá ativa talvez ninguém saiba precisar. Se é mesmo santa e pecadora, a resposta pode não parecer fácil, mas só o fato de existir há dois mil anos já pode ser prova de um milagre.
Texto de Luiz Eduardo Souza Pinto, na revista Sociologia

Recomendo a leitura da matéria completa. Os desafios de ser relevante e coerente com a mensagem permanecem.

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