Coisas inúteis

RAZÃO DE SER
(Paulo Leminski)

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lambram letras no papel,
Quando o poema me amanhece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde tudo o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Não raro escuto pessoas alegarem que não gostam de poesia por essa ser uma coisa inútil, ou por não a entenderem. E este post só tá nascendo porque eu tô viajando nessa idéia.

É evidente que o trabalho de um artista não é tão “útil” como o de um engenheiro ou de um administrador de empresas. A arte não gera efeitos pratico$, não se vê seus frutos, é algo interno, mental (espiritual, como preferem alguns). Conheço gente que é, por motivo$ obvio$, escritor de fim de semana, gente que faz música quando tem tempo, ou coisa parecida. E isso me lembra a passagem do Evangelho, em que Marta fica puta com Jesus e com Maria, sua irmã, por eles dois se sentarem à porta de casa para bater papo com os discípulos enquanto ela trabalhava sozinha.

Talvez, para Marta, ouvir Jesus falar não era mais importante que lavar a louça. Afinal, a casa limpa pode ser percebida por qualquer visita, mas o crescimento, a elevação que Jesus propunha era algo interno demais, quase invisivel. O que dói é perceber que mesmo depois de dois mil anos, as pessoas continuam muito mais marta que maria, mais formiga que cigarra.

Bem vemos o resultado do trabalho de um arquiteto, ou de um pedreiro: O prédio, a casa, a ponte… Tá tudo lá, à vista, concreto, aço, palpavel. Entretanto, o que um poema tem a oferecer? Que diferença faz ouvir uma música ou ler um romance, ou olhar uma tela, ou assistir a uma peça teatral, ou… ? Quê? Nada. É algo inútil.

Como bem definiu o porra-louca Paulo Leminski, “a poesia é um INUTENSÍLIO”. Ela não se propõe a explicar nada, não há razão que a limite, não há o que esperar, se não o estado de reflexão, de graça, de contemplação que nela consiste. Daí o motivo pelo qual os artistas são vistos como vagabundos, marginais, preguiçosos, etc… Nossa cultura supervaloriza o visível, o material, a objetividade. Logo, o poeta, o músico, o ator, o professor, o filósofo, o teólogo e o santo são despresados, menos importantes.

Engraçado mesmo é notar a contradição que existe ai: Todo mundo curte um cinema de vez em quando, uma conversa com os amigos num bar, ver o sol se por numa praia, ir a um show, flertar com alguém, tomar banho de chuva… Essencialmente, temos fome de beleza, de afeto, de humanidade. Mas, por razões $ociai$, deixamos todas essas atividades para o fim de semana, e olhe lá. Num desses dias em que fui ao MASP vender meus livros, perguntei pra uma moça que ia passando se ela gostava de poesia. A resposta dela foi: “Não, moço. Graças à Deus eu não estou desempregada”.

Em outros tempos eu ficaria puto. A chamaria de ignorante, alienada, fútil ou coisa parecida. Mas, hoje eu percebo que, assim como eu, ela é apenas uma vitima, pois, por mais que deseje liberdade, é forçada a se prender, a se render, a cumprir agendas e horários e metas e ordens. E dizer não a isso tudo implica em renúncia, em paixão, em encarar preconceitos inúmeros. Não é fácil.

Ainda com Leminski, “(…) Querer que a poesia tenha um ‘por quê’ é o mesmo que querer que um gol do Zico tenha um ‘por quê’, além da alegria da multidão; é querer que o orgasmo tenha um ‘por quê’… pra quê ‘por quê’?”.

Gracco Oliveira, em Refém das Ideias.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Coisas inúteis

Deixe o seu comentário