Rebobine por favor

“O cinema é um modo divino de contar a vida.”
Federico Fellini

Se a sua empresa não sabe o que as pessoas compram de sua empresa sua empresa não sabe qual é o seu produto.

No passado, e para se obter essa resposta, era suficiente perguntar às pessoas. Ou imaginava-se assim. Depois de alguns anos, e mais recentemente, empresas sensíveis e aplicadas passaram a, mais que perguntar, observar e aprender com o comportamento das pessoas. E mais recentemente ainda, agora mesmo, muito mais que perguntar e mais que observar as empresas colocam-se no lugar das pessoas. E seguem o conselho de Cartola em “As Rosas não falam”: “E, quem sabe, sonhavas meus sonhos, por fim”.

Os proprietários das locadoras, se não sabiam, deveriam saber que as pessoas não alugavam vídeos ou DVDs; compravam os serviços que levavam dentro desses vídeos e DVDs, dessas mídias, os filmes que programaram para se divertir à noite, ou no final de semana. Mas incomodavam-se em ter que sair de casa, muitas vezes pegar o carro e parar num estacionamento, não encontrar o filme desejado, e, depois, ainda ter que devolver. Muitas vezes esquecendo-se e pagando multa. Apenas esperavam uma nova alternativa da prestação do mesmo serviço. As pessoas não compram produtos; pior ainda, não existem produtos. As pessoas compram os serviços que os objetos físicos prestam. E muitos serviços, hoje, prescindem desses objetos, desses portadores.

Nesta coluna cansamos de alertar a Blockbuster e seu acionista principal, Unibanco, que não havia a menor esperança de sucesso para o empreendimento em nosso País. Infelizmente estávamos com a razão. Agora, e ao fechar os números de 2009, a derrocada continua. Em menos de cinco anos o número das locadoras sobreviventes no Brasil caiu para menos da metade: das 14 mil de 2004 restam, no máximo, 6 mil. Pior ainda, em todas elas, o movimento despencando, definhando, agonizando, próximo do fim.

Na Folha Ilustrada e em matéria assinada por Ana Paula Sousa, retratos do fim que se aproxima: “Achei que se estabilizaria em 2009, mas a queda deve ter sido mais de 10%” – Wilson Cabral, Sony; “Cheguei a ter 15 lojas em São Paulo. Hoje apenas três e uma só minha por uma questão de afeto e não por dinheiro. Mesmo assim não sei quanto tempo vai durar. Quando você puder baixar um filme em casa em dez minutos não tem mais por que ir à locadora” – Hélio Pereira, Vídeo Norte.

Atacados por todos os lados – piratas por baixo, Americanas, Fnacs e demais redes, por cima, e tecnologia de todas as direções, as locadoras preparam-se para o último ato. Agora existem alternativas melhores, mais acessíveis, mais econômicas, mais lúdicas, da prestação do mesmo serviço. Perderam a razão de ser.

Mas, e como estampa no título a matéria assinada por Ana Paula, e ainda durante muito tempo, carregaremos em nossa memória – nós, os mais velhos, da geração dos vídeos – o pedido de todas as locadoras: Rebobine, por favor.

Francisco A. Madia, no Propaganda & Marketing.

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