Lembrando-nos do "Dia do índio"

Lembrando-nos do “dia do índio”. 

Chomina, cacique da tribo Algonquin, perdeu todos os seus homens protegendo uma expedição dos colonizadores Franceses do Quebéc ao viajarem 2500 quilômetros até a Missão Huron. Um inverno cruel, um ataque brutal, captura e tortura por uma outra tribo indígena Norteamericana resultaram em uma ferida mortal no cacique.

Notando o fim, o Padre Laforgue, jesuíta e líder da expedição, falou para o cacique:

– Quando eu morrer, Chomina, eu vou ao paraíso. Deixe-me batizá-lo agora para que você também vá para lá.

– Por que queriria eu ir ao seu paraíso? – respondeu Chomina. “Meu povo, minha mulher e meu filho não estariam lá.”

No dia seguinte, enquanto o cacique permanecia deitado morrendo na neve, o Padre Laforgue tentou mais uma vez:

– Chomina! Meu Deus ama você. Se você aceitar seu amor, ele o deixará entrar no paraíso!

– Deixe estar, meu amigo, deixe – murmurou Chomina morrendo. [*]

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Para muitos de nós, o problema não estava imediatamente visível. Descobrir o Deus da Bíblia parecia como peças de um quebra-cabeças de tudo o que é verdadeiro e lindo se encaixando. Um mundo plano virou 3D, a escala de cinzas virou colorida, como se alguém tivesse acendido a luz. Nós estávamos banhados em luz. A tempo nossos olhos se ajustaram e nós nos vimos nas sombras. 

Sempre foi assim. Toda geração daqueles que decidem seguir a Cristo aprende que existem textos bíblicos a serem reinterpretados. Aqueles de nós que são parte da conversa sobre a igreja emergente acreditam que tais transformações são obras de Deus. E para a nossa geração, a sombra não é vista nas falhas das pessoas cristãs ou nas instituições cristãs disfuncionais, por mais falhas e imperfeitas que elas possam ser. Nossa sombra é a própria idéia de Cristianismo. Nossa religião tornou-se um sistema de gerenciamento de Cristo. Leia +.
Nós sentimos grande alegria na aceitação da humanidade por Deus através de Jesus Cristo. Encheu nossas vidas de luz. Mas a idéia do Cristianismo que outras religiões não podem ser portadoras de graça e verdade projeta uma grande sombra sobre nossa experiência cristã. A graça, o ensino central do Cristianismo, permeia toda a realidade, ou será que ela é algo que está vivo somente naqueles que têm o Novo Testamento e a tradição Cristã?

A revelação que nós recebemos por Jesus Cristo é uma expressão do que está em todo lugar em todos os tempos, ou será que o Evento Cristo esvaziou a maior parte do mundo e do tempo da graça salvífica e depositou-a em uma religião, a saber, a nossa? E de forma mais prática, como podemos nós ter uma conversa genuína de mão-dupla com não-cristãos sobre nossa experiência de Deus se nós cremos que Deus retém sua revelação de todos a não ser os cristãos?

Porque nós cremos que não há sombras em Cristo, nós não queremos nada menos do que reiterpretar a Bíblia, reconstruir a teologia, e reimaginar a igreja imitando o caráter de Deus que nós como seguidores de Cristo viemos a conhecer.

Quando eu me ponho no lugar do cacique Chomina, eu sinto o Espírito de Deus me perguntando: “O que você escolheria: vida eterna sem seus amados ou morte eterna com eles? ” Chomina sabia a sua resposta. Ele preferiu morrer a viver sem seus amados. Movido pelo Espírito Santo, pessoas como Chomina rejeitam a idéia de lealdade ao nome de Cristo e, ao invés, querem ser como ele e assim aceitá-lo de forma mais profunda. Esta escolha entre aceitar o nome de Cristo e ser como Cristo tem sido posta na frente de milhões de pessoas ao longo da história humana e hoje.

Uma pessoa não precisa crer em Deus antes de viver na presença de Deus. Deus está presente queira acreditemos nele ou não. E gente responde ‘sim’ a ele. Mark, um amigo meu não-Cristão de Nova Iorque, diz que pra ele “tornar-se parte do Cristianismo seria um retrocesso moral.” Contudo, ele disse coisas como essa para mim: “Viver é receber um presente. Eu creio que há uma força transcendente acima da nossa existência e parece que a humanidade tem negligenciado este presente. É só olhar para o que nós estamos fazendo uns com os outros. Mas no meio da bagunça, eu vejo a graça de um novo começo por todos os lados ao meu redor. E dentro de mim. E eu várias vezes me esquivo de responder a ela. Eu participo da loucura ao invés. Todas as vezes na minha vida que eu me volto para essa graça para procurar por uma segunda chance, eu sempre ganho. Eu acho que eu quero gastar o resto da minha vida sendo um canal dessa mesma bondade a outros.” Essa visão incorpora a doutrina da criação, do pecado, da salvação, e da nova vida. Isto é Cristo, encarnado na vida do Mark, presente em substância ao invés de nome.

Os Chominas e os Marks ao redor de nós deixam-nos pensando se Cristo pode ser mais que o Cristianismo. Ou até mesmo algo que não o Cristianismo. Será que os ensinos do evangelho estão embutidos e podem ser achados na própria realidade ao invés de serem isolados exclusivamente em textos sagrados e nossas interpretações desses textos? Se a resposta for ‘sim’, será que eles podem estar embutidos em outras histórias, histórias de outras pessoas, e até mesmo outras religiões? 

[*] Esta cena é do filme Black Robe de 1991. Padre Laforgue (Lothair Bluteau) e o cacique Chomina (August Schellenberg) são personagens da novela de Brian Moore que foi adaptada para o filme. A estória é histórica [NT: sic].


Por Samir Selmanovic


Trecho do livro “An Emergent Manifesto of Hope”, início do capítulo 16, “O Doce Problema da Inclusão: Encontrando Nosso Deus no Outro”.


Tradução de Gustavo K-fé Frederico

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