Casar pra quê?

É possível ser feliz para sempre com cada um na sua casa

Talvez as discussões sobre casamento comecem num ponto de partida equivocado. Elas opõem estar casado a estar sozinho, ou sozinha. Se a opção fosse entre estar casado e ter um namorado, ou namorada, a discussão seria a mesma? Suspeito que não.

No passado, comparar namoro a casamento não faria sentido. Quando os casais não podiam nem ir ao cinema sozinhos, casar oferecia a única possibilidade duradoura de intimidade entre homem e mulher. Intimidade física, sobretudo. Era também a única maneira respeitável de fazer filhos. E as mulheres, é bom lembrar, não eram autosuficientes economicamente: dependiam dos homens para o seu sustento. O casamento era uma garantia.

Nada disso se aplica mais. Com pequenas resistências conservadoras lá e cá, as pessoas no Brasil de hoje transam com quem quiser, quando quiserem. O direito à intimidade sem casamento parece assegurado. Quanto aos filhos, vale o mesmo. Embora a família tradicional (desde que estruturada) ainda ofereça o melhor ambiente para educação das crianças, está cheio de gente por aí que cresceu com pais separados ou na ausência total de pai e mãe. E tudo bem. De independência econômica nem é necessário falar. As mulheres já trabalham como homens e logo estarão ganhando tão bem (ou tão mal) quanto eles. Questão de tempo, me parece.

Logo, a questão retorna: por que as pessoas insistem em casar se é tão fácil viver em casal e mesmo ter filhos fora do casamento?

A minha teoria é que as pessoas se casam no Brasil pelo mesmo motivo que compram casa própria – a tradição da terra diz que é importante e, intimamente, todos desejam se proteger da incerteza do futuro. Como vou poder pagar o aluguel se, de uma hora para outra, eu não tiver mais renda? Em termos afetivos, como evitar a solidão e o desamparo se, ao envelhecer, não tiver ninguém ao meu lado sob contrato? Quando se trata da casa, a compra faz sentido. No casamento, a garantia é cada vez mais ilusória.

Antes de prosseguir na discussão, é necessário sublinhar o óbvio: os casamentos falham. Em grande quantidade, de forma dolorosa e com enormes custos pessoais e sociais.

No Brasil, se faz um milhão de casamentos formais por ano e 250 mil separações, também formais. Isso quer dizer, grosso modo, que, de cada quatro casamentos, um falha. Nos Estados Unidos, país que está mais avançado nos costumes, a proporção é de 50%. Metade dos casamentos falha. Aqui, demora cerca de 10 anos para isso acontecer. Lá quase 20. Lá e cá o fato é que as pessoas chegam a um ponto avançado da vida em péssimo estado: destroçadas, sozinhas e (frequentemente) quebradas financeiramente. Por causa do casamento. Leia +.

Ivan Martins, na Época.
Seria um retorno aos costumes tribais mais antigos, da época de Abraão?

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Casar pra quê?

Deixe o seu comentário