Fardo dos dentes

Namoro mesmo começa quando mostramos os álbuns de fotografia da família. Antes disso é flerte ou amasso.

Experimenta-se uma operação frágil e delicada, desde retirar o pó das caixas até virar as folhas plastificadas com capricho de colecionador. Nosso passado é sempre um livro raro, requer uma longa pausa dos dedos.

Reprisei as cenas de menino e não encontrei nenhuma foto rindo dos seis aos nove anos. Meu rosto estava sério, compenetrado, quase ameaçando a câmera. Não olhava passarinho, muito menos fazia xis. Ué, que estranho, eu me tinha por uma criança alegre, caseira, alucinada por colo nas poses. Os ombros da mãe correspondiam às minhas pernas-de-pau. Seu vestido, uma lona colorida de circo.

– Nossa, como você era mal-humorado?, comentou a namorada.
– Eu?

Inspirava realmente ares sombrios, de um guri problemático, com ternura violenta, represada. Poderia constar naqueles fascículos escolares como um futuro psicopata.

Fiquei intrigado durante semanas, assobiando a dúvida entre as tarefas do trabalho. Assobiar é minha hipnose regressiva. Com a cauda melódica de uma canção, sou capaz de passar o meu nascimento e pousar no piano de Beethoven.

Não compreendia a extravagância entre o que me lembrava e aquelas imagens. Pasmo com o tanto que me iludi.

Ao levar o Vicente para escola, caíram finalmente seus dois últimos dentes de leite da frente. Ele estava agora banguela, com uma inocência comovente. Festejei:

– Que lindo, como é mimoso!

Ele fechou o rosto e pisou num silêncio adulto e fúnebre, sequer me encarou. E lembrei, lembrei que eu não ria nas fotografias pelas lacunas da dentição. Emudeci os lábios, selei como envelope secreto. Eu me achava desengonçado, patético.

Reconheci como é terrível para o filho ganhar elogio na queda dos dentes. Os pais pulando em torno, pedindo para que ele mostre, fofocando aos amigos, orgulhando-se da transformação, oferecendo as pedras brancas às formigas em troca de dinheiro.

É impossível quitar essa dívida. Ele não está se sentindo bonito, terá que enfrentar a escola, abrir a fome na merenda, suportar mais duas séries até que os permanentes ocupem seus espaços, disfarçar o desfalque nos flashs dos torneios da escola. Tempo de apreensão, de passar toda hora a língua na gengiva. Período confuso, em que reconhecemos uma ausência e velamos o fim iminente da infância.

Para ele, não era engraçado, mas dolorido.

Vou respeitá-lo. Darei uma gaita para que complete – por enquanto – sua boca com música.

Fabrício Carpinejar, na revista Crescer.
arte: Paul Klee

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