Do megafone ao Twitter

Um saco de maçãs, doze caixas de leite desnatado, um cacho de bananas, um saco de pão francês, uma caixa de suco de abacaxi, queijo minas, ricota, biscoitos, um saco de limões e alguns galões de água. Foi com este “arsenal” que cerca de 50 estudantes ligados ao movimento “Fora Arruda e Toda Máfia” enfrentaram quase 24 horas de ocupação da nova sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal – encerrada na noite desta quinta-feira.

O objetivo do protesto era político: impugnar a eleição indireta que elegeu o governador Rogério Rosso (PMDB), transformar o novo prédio em espaço cultural ou uma escola de ética, fazer auditoria nas contas da construção do prédio, entre outros pontos. Mas tudo isso regado a leite desnatado?

E quanto ao estigma que marcou a atuação do movimento estudantil na época da ditadura militar (1964-1985), profundamente arraigado no fenômeno da contracultura? Por onde andam sexo, drogas e rock’n’roll? O perfil “geração saúde” do atual movimento estudantil inclui gel de cabelo, camisas com mensagens bem-humoradas, sandália de dedo nacional que faz sucesso na Europa, logotipo do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra pregado em alguma peça de roupa e uma rejeição incomensurável aos rótulos de “consumista” e “indiferente”.

Itens, outrora, pouco comuns. No lugar do Twitter, o megafone. No do notebook, o mimeógrafo. Ex-presidente do Grêmio do Colégio de Aplicação da UERJ entre 1968 e 1969, o deputado Chico Alencar lembra que este último aparelho, que servia para imprimir panfletos, ganhou o apelido de “cachacinha” entre os estudantes da época da ditadura, por funcionar a base de álcool.

“Mas não era cachaça de verdade, era álcool mesmo”, recorda Alencar. “Havia um controle muito rígido nos congressos, para não dar razão aos órgãos de repressão. Mas nada era proibido. O pessoal fazia muito amor, debaixo das mesas, atrás dos armários”. O deputado define o movimento estudantil atual como “multifacetado”, que “se revela uma força contestadora, que combina combatividade com irreverência, menos nitidez ideológica e mais humor”. Porém, risca no chão a seguinte linha:

“Por um lado, (a nossa luta) era mais fácil porque naquela época enfrentávamos um inimigo monolítico, muito definido, que era a ditadura. Agora o horizonte utópico é mais nebuloso, se mobiliza mais pelo imediato, não tem discurso da revolução socialista como nós tínhamos. Mas essa pluralidade ideológica não desmerece em nada esse movimento”.

A estudante de direito da Universidade de Brasília (UnB), Talitha Mendonça, 24 anos, uma das lideranças na ocupação da Câmara do DF, explica que o movimento estudantil “vive um momento histórico diferente”. Para ela, não tem “como querer que (o movimento atual) tenha a mesma cara do movimento anterior”. “Talvez naquela época fosse necessário aquele tipo de comportamento para quebrar com as barreiras. Hoje estamos muito mais preocupados em fazer com que as pessoas questionem ou critiquem”, pontua Talitha. “A responsabilidade em relação à postura é diferente. Não tem como fazer uma festa num espaço publico”.

A estudante lembra, no entanto, que a diversidade está presente nas manifestações no DF. Segundo ela, a ocupação anterior, na sede atual da Câmara, marcou o movimento: houve uma reorganização, então desmobilizada, no que vem sendo chamado de “coletivos”. “Existem diversos tipos de coletivos, com revindicações distintas. A política ainda funciona por meio de partidos, mas em Brasília a ideia de poder popular está muito mais forte. Ficou claro que as reivindicações do coletivo têm mais força”.

O sociólogo e pesquisador da Universidade de Brasília, Marcello Barra, que acompanhou a manifestação, arrisca: “Hoje ainda há jovens que são herdeiros de geração hippie. Mas, neste meio tempo, surgiram outros grupos, o que provocou uma diversificação muito grande na ação da juventude”.

Para Barra, acontecimentos históricos, como fim do mundo dividido entre Estados Unidos e União Soviética, tornaram “menos claros” os caminhos a serem tomados pela militância estudantil – o que, segundo o sociólogo, influi no comportamento dos jovens. “Com o maior número de oportunidades a seguir, fica mais difícil saber quem é quem na política”, reforça. “O jovem continua entrando na militância com a convicção política de transformação, mas acaba encontrando outros modos de manifestação na vida social”.

Fred Raposo, no Ig Jovem.

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