Uma nova Reforma: re-formando desejo e imaginação

Paulo Brabo

A fim de resgatar a Igreja como polis será necessário resgatar a Igreja como comunidade disciplinada. Este porém tem sido o aspecto da Igreja mais atacado pelo neoliberalismo, pois a igreja local tem se integrado por completo ao mercado de consumo; ao invés de frequentar uma igreja que disciplina nosso desejo e imaginação, é mais provável que frequentemos uma igreja que dá livres rédeas ao desejo que já possuímos1. Isso quer dizer que será necessário aprender a nos relacionarmos com a Igreja como comunidade que nos provê das disciplinas de que carecemos a fim de viver o cristianismo. Como afirma Hauerwas: “Não quero ser ‘aceito’ ou ‘compreendido’. Quero fazer parte de uma comunidade com os hábitos e práticas que me levem a fazer aquilo que de outra forma eu não faria, para aprender a gostar de fazer aquilo que fui forçado a fazer”2. Em particular, a igreja deve praticar disciplinas que se contraponham às disciplinas impostas pelo neoliberalismo, a fim de liberar o corpo da repressão imposta pela alma3. Isso implica em incitar uma nova reforma – a reforma do desejo e da imaginação.

A igreja deve começar reformando o desejo, e restaurando-o a seu verdadeiro lugar e sua verdadeira finalidade4. Isso quer dizer que, enquanto o neoliberalismo disciplina o desejo fundamentando-o em carência e ganância, e alinhando-o a direito adquirido, a Igreja deve libertar o desejo, fundamentando-o em produtividade, paixão e criatividade agradecida. Em vez de ver o desejo como função de carência, os cristãos devem entender o desejo como força produtiva, como abundante transbordar que traz continuamente novas possibilidades à existência5. Ao invés de ver o desejo como forma autocentrada de ganância, os cristãos devem entender o desejo como expressão de uma paixão pelo outro e, em particular, de uma paixão por Deus6. A igreja deve ocupar-se não do que é realista, mas do que é imaginável.Entendido dessas maneiras, ao invés de se manter alinhado a um senso de merecimento, o desejo passa a se alinhar a uma participação grata e criativa no processo de nos apoderarmos do reino de Deus.

Além disso, enquanto o neoliberalismo disciplina a imaginação através de medo e desespero, a Igreja deve libertar a imaginação através de esperança. A imaginação, ao invés de ser utilizada para produzir fantasias que nos distraiam de nosso medo e desespero, pode ser tratada como “pensamento-em-tornar-se”, uma sorte de pensamento que transforma o mundo em vez de prover um escape do mundo7. De fato, substituir as doutrinas teológicas do neoliberalismo com as doutrinas teológicas do cristianismo é precisamente a forma de exercício que libera a imaginação a fim de transformar a ordem socio-política e econômica8. Consequentemente, a verdadeira pergunta que a igreja deve fazer quando confrontada com o mundo do neoliberalismo não é “o que é realista, prático ou viável” mas o que é imaginável.9. Que os cristãos são capazes de imaginar completamente sem restrições fica evidente na esperança fundamentada nas promessas de Deus e na história do engajamento de Deus com o mundo. Como argumenta Moltmann10:

A esperança nada mais é do que a expectativa daquelas coisas que a fé crê terem sido genuinamente prometidas por Deus… É por isso que a fé, sempre que se desenvolve em esperança, causa não descanso mas desconforto… Os que esperam em Cristo deixam de ser capazes de suportar a realidade como ela é: começam a sofrer sob ela e a contradizê-la.

Tendo isso em vista os cristãos devem tornar-se “profissionais da esperança”, tendo suas imaginações unicamente disciplinadas pela recordação do que Deus fez e pela lembrança das promessas do que Deus está por fazer.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

fonte: A Bacia das Almas

NOTAS

  1. Cf. Hauerwas, After Christendom, 93-94; In Good Company, 26. Dorothy Day observa: “uma vez que o desejo deles mudava, metade da batalha já estava vencida. Fazer homens desejarem a pobreza e trabalho duro, era esse o problema” (The Long Loneliness: An Autobiography, Illustrated by Fritz Eichenberg [New York: Harper & Row Publishers, Inc., 1952], 226).
  2. In Good Company, 75.
  3. Cf. Moltmann, The Spirit of Life, 95; William T. Cavanaugh, Torture and Eucharist: Theology, Politics, and the Body of Christ (Oxford: Blackwell Publishers, Inc., 1998), 58.
  4. Cf. Hauerwas, Performing the Faith, 156; Bell Jr., Liberation Theology After the End of History, 72; Eagleton, After Theory, 129; Moltmann, The Church in the Power of the Holy Spirit, 173; Cavanaugh, “The Unfreedom of the Free Market”
  5. Esta é uma das afirmações centrais de Deleuze and Guattari; cf. Anti-Oedipus, 5-6, 24-27, 296, 380, et passim.
  6. Bell Jr., Liberation Theology After the End of History, 88-91. Desde pelo menos Agostinho, a tradição cristã tem entendido Deus como telos/finalidade do desejo.
  7. Sobre imaginação como “pensamento em tornar-se”, cf. Massumi, 96-100.
  8. Cf. Hauerwas, Performing the Faith, 92; Cavanaugh, Theopolitical Imagination, 1, 4; Bell Jr., Liberation Theology After the End of History, 87; Brueggemann, Texts Under Negotiation, 19-20, 24-25.
  9. Brueggemann, The Prophetic Imagination, 44. Bloch também dis isso bem: “Quem não tem esperança pelo que jamais se pode esperar, nunca irá encontrá-lo” (citado em Moltmann, The Spirit of Life, 103). É essa busca pelo imaginável que leva Day a perguntar: “Por que tanto é feito para remediar os males da sociedade em vez de evitá-los em primeiro lugar? Onde estão os santos que tentam mudar a ordem social – não apenas ministrando aos escravos mas abolindo a escravatura?” (The Long Loneliness, 45). Foram precisamente essas perguntas imaginativas que levou Day a fundar o movimento Catholic Workers. À luz de exemplos como este, o chamado cristão para um engajamento numa “realista segunda melhor opção” demonstra um chocante fracasso da imaginação cristã.
  10. Theology of Hope, 20-21; cf. Hauerwas, Against the Nations, 51; Wallis, The Call to Conversion, 117; Brueggemann, Texts Under Negotiation, 49; Theology of the Old Testament, 169, 173.



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