Bando de idiotas egoístas

Cara, somos um bando de idiotas egoístas! Vejo acúmulo de riqueza por toda parte. O livro Atlas Deu de Ombros, o verdadeiro evangelho do interesse próprio escrito por Ayn Rand, vende mais no site da Amazon que A Audácia da Esperança, livro que definiu a trajetória de Barack Obama. E mais, a confiança nas instituições que tradicionalmente espera-se que apóiem e incentivem a filantropia e seu equivalente do mal, a redistribuição – ou seja, o governo, as ONGS e a Igreja – parece ter atingido um recorde negativo.

Acrescente a isso o fato de que uma pesquisa recente do Pew Research Center constatou que os Milenais (pessoas entre 18 e 29 anos, cujas vidas foram inteiramente moldadas pela tecnologia), talvez sejam a geração menos religiosa da história. Cerca de 26% deles afirma não ter nenhuma tipo de ligação com a igreja.

Do ponto de vista filantrópico, isso pode parecer ruim: americanos tendem a dar duas vezes mais para as igrejas do que para a “caridade secular”. Mas essas mesmas pessoas enviam dezenas de milhões de dólares para vítimas de terremotos em terras distantes através de mensagens que autorizam a cobrança da doação na sua conta de celular.

Para esta nova geração de doadores, cultura pop, discurso público, mídias sociais e a caridade percorrem a mesma trilha. Nela, velocidade é algo bom, mas a ganância não é. Como isso ocorre?
Parece que fomos feitos para isso. Nossos cérebros liberam doses de dopamina que parecem nos dar os parabéns quando temos um comportamento altruísta – algo que somos impelidos a fazer no instante que testemunhamos algo terrível.

Melissa Brown, diretora associada de pesquisa do Centro de Filantropia da Universidade de Indiana, chama isso de nossa “resposta altruísta imediata” (RAI). Contudo, ela acrescenta que os impulsos da RAI são facilmente anulados pela demora: “A Geração X e os Milenais não querem passar pela dificuldade de digitar um número de cartão de crédito de 16 dígitos para fazer uma doação de 25 dólares”.

Felizmente, agora temos ferramentas digitais que acompanham com rapidez suficiente o nosso “gatilho” de empatia inata. Quer ajudar? Envie uma mensagem de texto custando alguns dólares para um determinado número e, de repente, você é parte da solução. Isso, sabemos agora, faz-nos sentir bem no nível neuroquímico. De fato, pode-se facilmente imaginar os avanços sócio-tecnológico nos unindo em uma espécie de superorganismo descentralizado – a matriz nervosa da pan-humanidade que detecta onde dói e envia ajuda em tempo real. Lembra da árvore das almas, feita de fibra ótica, do filme Avatar? Muito bem, meu irmão azul: ela já existe, e está brotando do seu telefone ou smartphone.

Aproveitar esse altruísmo neurobiológicos pode mesmo gerar mudanças reais e duradouras no lugar mais necessário: shows beneficentes promovidos por celebridades. Pense nisso: no mesmo dia em que soubemos do terremoto que atingiu o Haiti, o músico haitiano Wyclef Jean pediu doações pelo seu Twitter. Milhões de pessoas agiram imediata e apaixonadamente.

No momento que os shows beneficentes com os rappers P. Diddy e Pharrell começaram a acontecer, sentimos impulsos altruístas tardios e parecia algo forçado – ao menos para aqueles que reagiram à crise em tempo real. Mais eficaz ainda é a técnica empregada por Alicia Keys, que apresenta imagens de crianças carentes em seus shows. Em seguida, pipocam flashes com um número para doação por celular, satisfazendo a RAI de seus fãs. Pop + tecnologia = ajuda.

Naturalmente, esse altruísmo dependente de impulso tem suas desvantagens. Por um lado, essa dependência de estímulo faz com que ele não dure muito tempo, algo fundamental para a sobrevivência da maioria das organizações de caridade. Também significa que estamos sujeitos “aos caprichos da próxima blitz de mídia”, disse Brown.

Sem as imagens horríveis e a sensação visceral de testemunhar as catástrofes em tempo real, as preocupações se tornam apenas imediatistas. (Alterações climáticas? Reformas no mercado? Desculpe – é como tentar ficar chapado com orégano) Mas se o que tem sido chamado sentimentalmente de nossa “humanidade comum”, não passa de uma sensação neural com um prazo de validade medido em nanosegundos. E daí? Pelo menos agora temos a tecnologia para explorar isso. Talvez se Atlas tivesse um telefone celular, ele não daria os ombros. Refletiria sobre mandar seis dólares para a Cruz Vermelha.

Scott Brown, na revista Wired.

O deafio é descobrir qual a relação entre o afastamento da igreja e o aumento do interesse na caridade.

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