Meninos da Vila, semideuses da vez

No Brasil do futebol, só se fala nos meninos da Vila. São os semideuses da vez. Argumenta-se que o país que viu grandes jogadores honrando a seleção canarinho (é melhor nem começar a citar nomes) andava carente de futebol arte desde a Copa do Mundo de 1982.

O Santos de 2010 realmente é um timaço. Está lá a bola no meio do campo, de repente um escorrega feito piaba, dá um chapéu, uma pedalada, lança pro outro, que dá um toque de calcanhar, faz a tabela e sai na cara do gol. Gol por cima, por baixo, pela esquerda, pela direita,um horror para a defesa adversária.

É tudo muito bonito de se ver, mas não é só isso. Os meninos da Vila não respeitam o adversário. Fazem chacota, soltam risinhos histéricos, e, o que é pior, parecem desconhecer que antes deles houve outros até melhores e talvez nem desconfiem que eles não serão os últimos craques da bola.

Porém, é preciso dizer que eles agem mal, mas não erram sozinhos. Parte da mídia especializada tratou de enfiar na cabeça deles que são fantásticos, e olha que ainda são tão novinhos! E foram profissionais do jornalismo esportivo que se encarregaram de desculpar os meninos da Vila pelas muitas atitudes pouco profissionais, dizendo que é coisa de menino, ai que bonitinho.

Ao fazer isso, prestam um desserviço ao país. Nossa população cada vez mais envelhecida começa a sentir o peso dos anos. Em terra de velho, quem nasceu outro dia acha que merece toda bajulação. Será que temos que pedir desculpas por não sermos tão novos, nem tão rápidos, nem tão talentosos quanto eles? Eles que, em uma década e meia, serão chamados de dinossauros, vovôs decadentes, e serão apenas sombras para os meninos da bola que surgirão depois deles, apenas nomes soltos no ar, ou talvez nem tanto.

Isso não é uma praga que rogo. Pelo contrário, é uma triste constatação do caminho que nossa geração está trilhando. O espírito coletivo que endeusa heróis momentâneos e os descarta na temporada seguinte é de uma crueldade sem tamanho. E, é claro, os meninos da Vila são só um exemplo dessa mentalidade que se perpetua há bastante tempo, e não apenas no mundo dos esportes. Mas isso é assunto para outro texto.

Se cada um desses meninos souber viver seu momento com graça e sabedoria, sem ignorar a história nem menosprezar os mais experientes, talvez possam ajudar a destruir este rolo compressor que agora têm alimentado, e talvez se salvem. E eu realmente torço por isso, porque suas vidas certamente valem muito.

É pensando nisso que venho render homenagem a todos os craques do futebol que um dia jogaram por nosso Brasil. Vocês honram para sempre a nossa história. Sem vocês, faltaria um pedaço em nossa alma auriverde. E se algum atleta, por mais novo que seja, não entendeu isso, não deveria servir para herói nacional.

Ana Cristina Gontijo, no Notas de Aprendiz.

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