“O maior fetiche do século 20 é a burrice”

Desejos líquidos

“Entre os grandes erros que o século 20 adora cultivar, nenhum talvez seja maior que o seu suposto repertório de fetiches. O maior fetiche do século 20 não é a mais-valia – como suspeitava Marx; nem o inconsciente – como queria a psicanálise; nem a ideologia – como repetiu Althusser; nem a velocidade – como festejava o futurismo; nem o corpo – como previu Wilhelm Reich; nem a geometria – como imaginava Mondrian; nem mesmo Doris Day – como tanto queria Pedro Almodóvar. O maior fetiche do século 20 é a burrice.

Sua definição é delicada. Ao contrário do que se acredita, a burrice não é um caso de deficiência intelectual ou falta de informação. A burrice é um caso de falta de modos. É a melhor forma que o estereótipo descobriu para se vingar da cultura.

E nada é tão indiferente à cultura quanto a informação. É uma indiferença justificada: mais que qualquer outra criação humana, a informação é o verdadeiro oposto, simétrico e perfeito, de tudo que representa a cultura. Afinal, toda criação é só uma variedade de mentira; poucas criações são tão mentirosas quanto o mito de que a informação seja importante.

A cultura é importante. Assim como um superestimado escritor argentino, apaixonado por espelhos e tigres, insistia em que a teologia era um ramo da literatura fantástica, é bem provável que a cultura seja um ramo das boas maneiras. Ou, como escreveu Eliot, que possa ser considerada como o que torna a vida algo que valha a pena.

Por sua própria natureza, tudo que vale a pena é excepcionalmente raro. A cultura, assim, é, antes de tudo, uma experiência do que é básico. E se em sua etimologia ela sempre esteve vinculada à terra, aos bois e ao campo, nunca me ocorreu acreditar em qualquer cultura que não opusesse uma reação violenta a essa bucólica semântica de origem. Chega de terra.

A cultura é como a água. Suas qualidades são as mesmas: como a água, toda cultura real deve ser clara. Fluida. Essencial. Discreta. E, acima de tudo, supremamente difícil.

A água é difícil. Seus mistérios reduzem sistematicamente a filosofia, a religião, a história e o pensamento a uma constrangedora superficialidade. Para o século 19, a água era uma das formas do desejo; suas maiores virtudes eram femininas – o ritmo, a doçura, o frescor.

Suas imagens multiplicavam esse fascínio: fosse com as cachoeiras de Courbet, que pareciam se confundir com suas mulheres à beira de nascentes; com os banhos turcos de Ingres, sempre pródigos em nus femininos; ou com as toilettes de Degas, que acabavam identificando, com insinuações controladas, a pele e a água. Em certos momentos, uma cultura que não souber desdobrar-se com a leveza de uma odalisca perfumada não pode servir para quase nada.

Quem faria muita questão de uma cultura que não possuísse o mesmo “inesgotável frescor dos riachos”, que Gide afirmava nunca ter conseguido encontrar na sabedoria dos homens? De nada nos pode servir uma cultura que não se inspire na juventude das fontes, nos segredos dos poços, no espelho dos lagos, no suor dos músculos, no sal das ondas. Aprender a água é uma lição muito mais sofisticada que aprender qualquer ficção do nosso orgulho, como a lógica, Rachmaninoff ou o indo-europeu. Mais que uma matéria, a água é um princípio, uma disciplina e uma ética.

Compreender a água é um privilégio para poucos. Foi o grande triunfo de Frank Lloyd Wright, ao projetar sua casa para os Kaufmann na Pennsylvania; do rei Xerxes, quando ordenou que o mar fosse chicoteado; de Michelet, ao descrever a respiração dos oceanos; de Wagner, ao repetir uma sucessão quase maníaca de seus mi bemóis, tão líquidos e hipnóticos, no prelúdio do Rheingold; de Coleridge, resumindo o desespero de seu velho marinheiro com “water, water everywhere”; de Hokusai, flagrando sua enorme onda em Kanagawa como um snapshot congelado e barroco; de Gene Kelly, assobiando a alegria na chuva; de Leonardo, perseguindo o movimento no esboço de suas correntezas e tempestades como a mais preciosa alucinação florentina; de Rodin, esculpindo suas Bacantes com a fluidez submarina de uma coreografia perversa; de Murnau, deslizando suas canoas primitivas pela costa do Tahiti em Tabu; e dos invasores mouros que construíram os canais do forte de Alhambra, em Granada. O que não quer dizer que tudo isso tenha feito com que a água estivesse servindo de tema para a cultura; a cultura é que serviu de tema para a imaginação da água. Há prioridades delicadas.

Quando W. H. Auden estabeleceu as suas, terminou um poema – First Things First – com um verso que deveria ser adotado em toda parte como uma infalível lei moral: “Muitos já viveram sem amor”, ele escreveu, “ninguém sem água”.

Como outro exemplo para a cultura, mais uma vez, a água também soube formar sua realeza e garantir sua arqueologia; a mesma água que, em Mileto, fez Tales descobrir a filosofia, continuava brilhando nas ondas do Havaí, quando Duke Kahanamoku revelou ao mundo a majestade do surf.

As tradições da água são um estilo de fábula; no fundo, todas as nossas fantasias sempre acabam em algo úmido. Nosso inconsciente só pode ser um playground – primeira condição para a arte – se estiver permanentemente molhado. Toda cultura verdadeira precisa, antes de tudo, aprender a flutuar como uma ilha – para poder guardar, enterrados, nosso dois tesouros mais secretos: nossa intimidade e nossa sede.

Por isso, se o primeiro grande inimigo de qualquer cultura genuína é a informação, o segundo são as idéias – que se multiplicam com a facilidade um pouco promíscua de uma praga de algas num aquário municipal abandonado. Para um homem culto, uma idéia é como uma isca vazia.

Mais uma vez, a lição é clara: o velho provérbio que repete as vantagens da água sobre a pedra dura é um elogio aberto às virtudes da compulsão. Muitos já viveram sem idéias; ninguém sem manias. E essa talvez seja sua derradeira e mais perfeita sugestão: a cultura nunca se baseou no conhecimento, mas sim no frenesi.

O que não deixa de ser uma sorte: afinal de contas, o que é uma idéia, comparada a uma obsessão?”

Sérgio Augusto de Andrade [via Ricardo Lombardi]
arte: Maurizio Cattelan
dica do Chicco Sal

apesar de antigão (1997), o texto continua hiperatual.

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