O dia amanheceu diferente

Seu José é carioca, casado com dona Cida, baiana arretada. Aposentados, levam uma vida pacata no Morro do Bumba, em Niterói. Todas as manhãs ele sai de casa pra comprar dois pães bem quentinhos, um pra cada um. Ele acorda dona Cida com um beijo na testa e avisa que o pão já está sobre mesa só esperando pra namorar o cafezinho sem açúcar que ela faz. Ela se espreguiça, sorri e vai. Vai brincando e dizendo: – Estou agradecida, mas quero que você agrade a Cida.Eles gostam de começar o dia ouvindo as belas canções do Chico. Sentam-se e rezam agradecendo o mais novo dia e o pão que o Pai nosso deu.
Seu José é de poucas palavras, aprendeu com a vida que o que a gente faz fala mais do que muito falar. Já dona Cida, tem sempre novos assuntos sobre a comunidade. Ela fala. Ele ri. Ambos se olham com cumplicidade, simplicidade e amor.

Ao fim das tardes, dona Cida gosta de acender velas, não somente para iluminar o barraco escuro, mas também pra fazer suas preces. Seu José não concorda muito com as velas, diz que não foi assim que aprendeu, mas a respeita e aproveita o momento solitário na sala pra falar com o Senhor dos céus, como ele O chama.

Essa era a rotina do casal, até que naquela quarta-feira o dia amanheceu diferente.

Ele perdeu a hora e não foi comprar o pão. Acordaram juntos e entre o abraço resolveram agradecer o novo dia ali mesmo, na cama. O café foi feito ao som do Chico, dana Cida cantarolava e mexia a cabeça (a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a Roda Viva e carregada o destino pra lá… ♪) enquanto seu José procurava no armário o que substituiria o pãozinho. Achou um pacote de bolacha e montou a mesa. Ela estava mais falante do que nunca e ele, com o mesmo sorriso tranqüilo.

Receberam a visita de seu filho e a netinha espuleta de sete anos. Almoçaram juntos e a visita se foi. Quando começou a escurecer, as velas foram acesas, mas dessa vez seu José fez companhia a dona Cida no quarto no memento das preces. Oraram juntos e uma brisa suava entrou pela janela apagando uma das velas. Era um sopro que parecia vir dos céus. Parecia do Senhor dos céus. Algumas lágrimas escorreram e eles não sabiam o motivo, apenas sentiam paz. Lembraram das palavras da netinha durante a tarde: “Minha professora diz que tudo que acontece tem um lado bom”.

Deitaram-se pra dormir. Alguns minutos depois… GRITOS! Choros, tremor e tudo se apaga. O morro desabou. Eles foram encontrados pelos bombeiros, ainda com vida, porém muito fracos. A caminho do hospital ele deu seu ultimo suspiro e voou. Após dois dias ela recebeu alta, não queria entender o que havia acontecido, chorou, indignou-se por instantes e questionou o Senhor dos céus que a abraçou com um abraço de mãe, de conforto. Dona Cida, agora agradecida, sorriu pelo milagre da vida. Ela tem saudades do seu velho, mas crê que ele está em um lugar muito melhor. Enquanto alguns desistem de viver mediante as dificuldades, ela afirma que perdeu o companheiro, mas ganhou nova chance de vida, perdeu o telhado, mas ganhou as estrelas. É raro, mas ainda existe gente que sabe onde depositar a fé.

Fernanda Teka, no A levada da Teka.

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