@ressurreição

Francisco A. Madia

“Morro em cada noite para ressuscitar em cada manhã.” Georges Bernanos

Grosso modo a, ou o, @ estava com as malas prontas, e, quem sabe, brevemente perderia sua posição secundária nos teclados. Lá atrás, muito lá atrás, no Renascimento, e até mesmo antes quando Guttenberg ainda não tinha inventado sua maquininha mágica de imprimir que mudaria a história do mundo, caligraficamente, aparecia em documentos de transações comerciais, como sinônimo de “valor da unidade”. Assim, 100 vacas @ 1.000 custariam 100 mil. Em outros historiadores, atribuiu-se sua origem e uso à abreviatura da preposição latina AD, seguida de um numeral. Outros encontram uma primeira manifestação num documento assinado por Francesco Lapi, em 4 de maio de 1537, a propósito da compra que fez de uma determinada quantidade de vinho procedente do Peru, vendida por Pizarro, “compra de uma @ de vinho”, onde @ igual a “uma ânfora” de vinho.

E assim foi sobrevivendo e prosperando. Com as máquinas de escrever, então, fez a festa. E como unidade de medida é a quarta parte de um quintal, 25 libras, ou mais precisamente 11,33980925 quilogramas. Mas, e mesmo assim, com leituras diferentes em diferentes países. Tanto no Brasil – onde sobrevive para pesar gado e porcos – como em Portugal – onde sobrevive para pesar cortiça – equivale a 14,5689 kg. Mas, à semelhança do faquir de Kafka, caminhando para o esquecimento. Ou para a morte morrida, segundo o falecido e saudoso Roberto Campos.

E tudo sinalizava essa direção quando Ray Tomlinson, da BBN Technologies, em 1971, decidiu ressuscitar o, ou a @, como indicador de localização na web. E daí para frente passou a fazer parte do nome/endereço das empresas e das pessoas, e hoje ninguém mais aguenta o sucesso e a felicidade do, ou da, @. Mais um mais que condenado à morte que escapou.

E em reconhecimento a tudo isso, o MoMa decidiu incorporá-lo a seu acervo, claro, sem desembolsar um único dólar, mas como registro e homenagem, a @. Segundo o MoMa, o símbolo mais utilizado por pessoas e empresas em todo o mundo e para sempre. Milhares e milhares de vezes a cada novo segundo.

A partir de agora os visitantes do MoMa – Museu de Arte Moderna de NYC terão a oportunidade de cruzarem com o ou a @ em seus corredores e paredes.

No momento do anúncio, a curadora sênior do MoMa, Paola Antonelli, explicou que o museu adquiriu, leia-se “apropriou-se”, do “ato do design”, adotado para uma nova função, e como especificador da origem de uma mensagem de e-mail.

Ao lado de Picasso, Degas, Rousseau, Matisse, Lautrec, e muitos outros mais, @, assinado por Tomlinson.

Sonhos de fadas como esses só acontecem uma vez a cada século ou milênio. Para nossas empresas e produtos, temos que trabalhar duro, firmes e fortes, contando com nossa capacidade, inteligência e sensibilidade, e desconsiderando eventuais possibilidades de sermos agraciados pelos deuses, fortuna, destino, milagres.

fonte: Propaganda & Marketing

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