Jingles inesquecíveis

Lula Vieira

Um bom autor de carnaval está mais próximo do jingle do que um letrista de rock

Antonio Maria, autor de “Ninguém me ama”, “Dorme menino grande”, “Valsa de uma cidade” e muitos outros sucessos maravilhosos da MPB, era também jinglista. E dos bons. Faço o comentário e justifico: não é só porque o cara é bom compositor e bom letrista que vai ser também bom jinglista. Uma coisa, em princípio, não tem muito a ver com a outra, embora o conhecimento de música e a intimidade com as mumunhas da criação musical ajudem muito ao jinglista. Mas já entrei em muitas frias pedindo jingles a autores consagrados.

É uma questão de talento específico, de certa bossa marqueteira, de alguma inteligência funcional na arte de vender. Eu diria que um bom autor de carnaval está mais próximo do jingle do que, por exemplo, um letrista de rock. Mas já são masturbações sem nenhum tipo de comprovação científica. Eu hoje, confesso, acordei meio a fim de jogar conversa fora. Mas o assunto surgiu a respeito do Antonio Maria, que também foi marido de Danusa Leão e um dos melhores cronistas de nossa imprensa.

Currículo dos mais respeitáveis se ainda acrescentarmos sua simpatia e verve boêmia, conhecidas e muito apreciadas em todos os bares, boates, restaurante e puteiros do Rio de Janeiro.

A historinha que eu quero contar e parece que não consigo deslanchar é que um dia encomendaram ao Antonio Maria um jingle para o Regulador Xavier (“A saúde da mulher”) que, como todos sabem, podia ser encontrado em duas versões: número 1 para excesso e número 2 para escassez. Estava Antonio Maria tentando musicar com elegância assunto tão delicado quando veio buscá-lo para sair a fabulosa Araci de Almeida, a Araca, Arquiduquesa do Encantado, Rainha de todos os parangolés e pessoa sobre a qual jamais restou qualquer dúvida.

Maria, para acabar logo com o serviço, pediu ajuda à grande cantora que, em menos de um minuto, teve a ideia de parodiar o samba de Noel Rosa que fazia muito sucesso naquela época e cantou empolgada com sua capacidade criativa: “O ovário vem caindo…”. Noel, diga-se de passagem, era outro jinglista respeitado.

Outra história envolvendo jingles é de muito antigamente, no tempo em que os jinglistas apresentavam suas criações registradas em precários gravadores portáteis, a maioria das vezes com o próprio autor no microfone, acompanhado de um violãozinho.

Pedi para o Passarinho criar um jingle para o Café Palheta, líder de vendas no Rio de Janeiro e produto dos mais conceituados. Passarinho tinha uma voz rouquenha, que num cassete dos antigos tornava muito difícil a compreensão da letra. O pior era quando ele tentava explicar (falando) suas ideias para o arranjo. Passarinho, além de tudo, era gago. Muito gago.

Pois bem, o cliente tinha pressa do jingle e por um motivo qualquer a gente mandou o cassete do Passarinho para o diretor de propaganda do café, logo depois que chegou na agência e foi aprovado pela criação. Poucas horas depois recebi um telefonema do tal diretor que – por sorte – era boa pessoa e meu amigo.

“Lula – disse ele – o que deu no Passarinho dizer que meu consumidor gosta do café desde o tempo da punheta? Primeiro é um palavrão, segundo que eu não sabia que punheta tinha caído de moda. Terceiro que eu acho que punheta vem desde que o homem apareceu no mundo e Palheta, apesar de tradicional, não é do tempo das cavernas”.

Passarinho não bebia, o que me fez afastar a hipótese dele estar de porre. E mais – louco ele não era. Confesso que eu não tinha ouvido o jingle, mas a dupla tinha gostado, o RTV tinha gostado e a possibilidade de todo mundo ter ficado maluco era remota. Foi só depois de eu ter encontrado o Passarinho que eu descobri que a letra verdadeira era “Desde o tempo do Palheta”, o nome do primeiro plantador de café do Rio e também poderia ser desde o tempo do palheta (chapéu).

Claro que depois de explicar para o cliente, recomendamos ao Passarinho pedir ao cantor do jingle definitivo cuidar da pronúncia para não criar qualquer tipo de confusão.

Quando contei ao cliente nossa providência, tive a maior surpresa: “Lula, andei pensando bem, a confusão até que é boa. O povo vai acabar cantando punheta mesmo e daí a coisa pega”. Foi só eu contar esse diálogo para o Passarinho e ele sugeriu que a assinatura do locutor poderia ser: “Seja você também um grande palheteiro”.

Daí achei que já era demais.

fonte: Propaganda & Marketing

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