Marina Silva: “O Brasil precisa antecipar o futuro”

Mariana Sanches

Havia apenas duas coisas que Marina Silva desejasse quando era criança. A primeira, diz ela, era andar nos aviões que via sobrevoando a selva acriana onde nasceu. A segunda era ter uma fotografia sua. “Agora o que mais tenho feito é andar de avião e tirar foto”, disse Marina, na tarde da quinta-feira, ao se despedir de um rapaz que posara a seu lado para um retrato feito com celular no corredor do Senado. As viagens e as fotografias são parte do esforço de Marina para viabilizar sua candidatura à Presidência pelo Partido Verde. Ela tem corrido o Brasil tentando convencer os eleitores de que “não há nada mais potente do que uma ideia cujo tempo chegou”, como gosta de repetir, citando o poeta francês Victor Hugo. Marina flerta com o improvável. Na infância sobreviveu a cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. Agora, com escassos 8% das intenções de voto e o menor tempo de TV entre os três principais candidatos, ela tem pela frente o desafio mais difícil da carreira. Com 52 anos e 51 quilos, se diz preparada. Em seu gabinete, no Senado, Marina falou a ÉPOCA sobre planos para um futuro governo e sobre suas memórias.

ÉPOCA – Por que a senhora deve ser a próxima presidente do Brasil?

Marina Silva – Uma das coisas mais importantes na vida de um país é a capacidade de preservar as conquistas e, ao mesmo tempo, ter uma visão do futuro. Conseguimos algumas conquistas: estabilidade econômica e avanço na política social, mas as pessoas estão tratando isso como se fosse o fim da história, estão perdendo a capacidade de antecipar o futuro. E o momento privilegiado para fazer a integração entre o passado e o futuro é a eleição. Sei que o Brasil está preparado para ter uma mulher na Presidência. Uma mulher capaz de integrar o olhar feminino ao olhar masculino, a intuição e a racionalidade, e de colocar novos valores na política.

ÉPOCA – Há espaço para a defesa da “sustentabilidade” no Brasil, um país em que grande parte das pessoas não tem creche para deixar os filhos?

Marina – A ideia da sustentabilidade é um imperativo. O povo tem uma sabedoria bem maior do que as lideranças políticas. As pessoas podem até não transformar em palavras aquilo que sentem. Mas elas se colocam em movimento para fazer. É assim que as grandes transformações acontecem. Foi assim que aconteceu na África do Sul, foi assim com Martin Luther King nos Estados Unidos.

ÉPOCA – Suas propostas são equivalentes às de Luther King?

Marina – Eu não seria pretensiosa a esse ponto. Falo como uma metáfora histórica. Até porque essas ideias não são minhas. São fruto de 30 anos de luta socioambiental no mundo. Hoje os processos são multidimensionais e as lideranças são multicêntricas.

ÉPOCA – A senhora fala de modo muito complexo. As pessoas a entendem?

Marina – Entendem. Lá no meio do seringal, com o Chico Mendes, quando começamos a ouvir falar sobre ecologia e meio ambiente, alguém poderia ter dito para o Fernando Gabeira [deputado federal (PV-RJ)]: “Vocês acham que esses seringueiros vão entender isso?”. Nós entendíamos tudo porque nós já fazíamos aquilo que eles diziam em palavras.

ÉPOCA – O economista Eduardo Gianetti está colaborando com seu programa de governo e é conhecido como um liberal. Sua trajetória é de ligação com movimentos sociais. Por que estão juntos agora?

Marina – Ele é um pensador, um economista que elabora para além das questões da economia. Fiquei muito bem impressionada com a forma como ele vê o desafio da sustentabilidade à luz desse esforço de transitarmos para um novo modelo de desenvolvimento. Quem foi que disse que as pessoas têm de pensar da mesma forma em tudo?

ÉPOCA – Seu governo será de esquerda?

Marina – A gente empobrece o debate com essas caracterizações. Não vejo ninguém me cobrando que meu governo seja de esquerda. Aliás, não vejo ninguém cobrando isso nem do presidente Lula. A gente tem de cobrar do governo que ele seja justo, honesto, comprometido com os princípios republicanos.

ÉPOCA – Como vê a reforma agrária e as ações do Movimento dos Sem Terra?

Marina – A gente tem de separar as duas coisas. A luta pela reforma agrária é legítima. No Brasil não se teve o atendimento dessa questão histórica, mas a forma de lutar por ela não pode extrapolar o Estado Democrático de Direito. Aqueles que não extrapolam têm o direito de se expressar. Aqueles que extrapolam não podem ser tolerados. Mas também não dá para generalizar a luta dos sem-terra como se todos estivessem extrapolando. Da mesma forma que não vejo ninguém generalizando em relação aos ruralistas, que muitas vezes usam da jagunçagem para se contrapor à reforma agrária.

ÉPOCA – A senhora teve rusgas com o ex-governador de Mato Grosso Blairo Maggi. Como a senhora vê o agronegócio?

Marina – A agricultura é importante para o nosso país, é responsável por mais de 30% da nossa balança comercial. Ainda temos ruralistas que não se conectaram a duas coisas: o respeito ao meio ambiente e aos direitos sociais conquistados na Constituição de 1988. Mas não se pode demonizar todo o agronegócio. Temos é que combater aquela cultura que, em lugar de passar no teste, fica tentando mudar o teste. Precisamos deixar de ser vistos como aqueles que produzem em prejuízo do meio ambiente e das questões sociais. Isso vai ser uma vantagem na disputa com aqueles que tentam nos prejudicar no mercado externo com barreiras não tarifárias.

ÉPOCA – A escolha do empresário Guilherme Leal para ser seu vice é uma tentativa de conquistar o empresariado?

Marina – Tem uma parte do empresariado que está com a Dilma, uma parte com o Serra. E uma parte do empresariado, de vanguarda, pessoas que já estão atualizando seus negócios, que estão muito próximas a mim e ao Guilherme. A gente não pode ter pretensão de unanimidade e se fechar ao diálogo.

fonte: Época

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