Novas confissões de um editor

Sérgio Pavarini

Uma frase da escritora Rose Marie Muraro parece tipificar o estado de espírito permanente dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro: “Eu sou carioca. Você nunca encontra cariocas tristes”.

Criativa, a população da cidade sempre encontra um viés bem-humorado, mesmo na hora de protestar contra alguma coisa. Em acontecimentos recentes, a forma escolhida de protesto foi um abraço coletivo.

A praia de Botafogo está poluída? Abraço nela. O Instituto Fernandes Figueira está precisando de reformas? Chamem mil pessoas para dar um grande abraço na instituição. A lagoa Rodrigo de Freitas está novamente contaminada? O povo alegre vai dar um abração daqueles no cartão postal da cidade. Hospital Souza Aguiar, Colégio de Aplicação da Universidade Federal e lagoa da Tijuca também foram palco de abraços coletivos recentes.

A Bíblia registra vários abraços. Associado ao beijo, é uma expressão forte de devoção e carinho, como ocorreu com Labão quando ouviu as novas de Jacó. O reencontro com o sobrinho foi o reatamento da convi-vência familiar. Antes de Jacó encon-trar o tio, removeu a pedra da boca de um poço no deserto e deu de beber ao rebanho do irmão de sua mãe, abençoando as posses de Labão. Ele o serviu, mesmo antes de abraçá-lo.

Na reconciliação de Jacó com o irmão, Esaú, o abraço selou o momento emocionante. Diz a Palavra que o irmão “arrojou-se-lhe ao pescoço”. Abração mais que apertado, no qual as mágoas foram esquecidas. Aquele gesto de carinho foi um símbolo incontestável de perdão. Não interessava mais o passado. Os olhos voltavam-se agora para o que viria à frente. O amor só é genuinamente cristão quando deixa de olhar para trás, em busca de deslizes para incluir na fatura de cobranças. Aquele abraço forte passou uma borracha nas rixas anteriores.

Um pouco mais à frente no texto de Gênesis, Jacó conheceu os filhos de José. Com a visão debilitada pela velhice, beijou os netos e os abraçou, nesta ordem. Ele glorificou a Deus pois não esperava sequer ver o rosto de José. A providência divina lhe propiciou a oportunidade de abençoar os netos, filhos daquele que Jacó julgava morto.

O Novo Testamento também contém vários relatos de abraços. Antes de partir para a Macedônia, Paulo chamou os discípulos. Eles acabavam de viver um momento tumultuado, durante a assembléia do povo de Éfeso. Uma das traduções diz que o apóstolo abraçou os companheiros no momento da partida. Outra versão diz que ele “confortou-os”. Os braços de Paulo revestiram-se de caráter terapêutico. A tensão do período anterior foi dissipada. “Fiquem firmes”, parece ter sido o discurso gestual, sem o uso das palavras.

A narração de Lucas também descreve o poder milagroso que pode existir em um abraço. A pregação de Paulo avançava e o jovem Êutico adormeceu, caindo da janela do terceiro andar. O apóstolo inclinou-se e abraçou o jovem. O sopro de vida foi insuflado no rapaz por meio daquele abraço. Através daquele gesto, o que estava morto reviveu, enchendo de alegria todos os presentes.

Quando a situação de Êutico parecia irreversível, um simples abraço restaurou-lhe a vida. Paulo não optou por alterar o rumo de sua pregação, aludindo aos perigos do sono na vida espiritual. Tampouco prescreveu o conselho “Quem está dormindo, veja que não caia”, adaptando o que havia escrito em Éfeso aos coríntios. Ao saber da queda, o apóstolo preocupou-se em devolver o jovem à vida. Trocou as críticas pelo ato singelo de envolver Êutico com os braços.

Há algum tempo li outro artigo sobre um líder brasileiro que escorregou. Ele não foi flagrado, como aconteceu com outro irmão americano. Expôs seu drama familiar publicamente, desabafou em várias mensagens, algumas até (des)temperadas pelo seu estado de espírito momentâneo.

Como aconteceu com pouca gente no meio do povo santo, teve cada frase acuradamente analisada. As pessoas lucubraram os possíveis motivos da queda, aventaram hipóteses e, num exemplo pouco cristão, preocuparam-se mais com o pecado, deixando o pecador em segundo plano.

Tempos depois, é impressa apenas uma palavra na capa da revista que o líder ajudara a criar, nos bons tempos de seu ministério outrora pujante: “Perdão”. Mais uma vez ele esteve na linha de tiro. Implacáveis, os irmãos responderam numa enquete que ele não deveria voltar a exercer suas atividades ministeriais. A falha não afastou a sabedoria presciente que tempos atrás chorara numa mensagem: “Prefiro cair nas mãos de Deus do que na dos homens; Ele eu conheço”.

Passeei os olhos na matéria sobre o líder. Novamente ele estava sendo julgado. Não apenas pelo pecado, mas agora até pelas motivações de seu pedido de perdão.

Lembrei-me de imediato que Jesus é novamente crucificado quando pecamos. Não bastasse a cruz, quando erramos o alvo também atamos outra vez o ressurreto à vergonha do madeiro. Até quando, Senhor?

Ao contrário do que ocorreu durante a quase execução da mulher adúltera, as pedras não têm pesado nas mãos dos que continuam a esquadrinhar o coração do personagem do imbroglio. Entre o extenso time de juízes, a condição de solitário dele é lembrada como motivo precípuo para alguns desatinos. Com certos exemplos de lealdade em altos decibéis, a solidão parece não ser apenas alternativa.

Falta-me a origem carioca, bem como o humor e a descontração típica deles. Ao contrário, a verve por vezes me é tão ácida que corrói a temperança. Hoje, porém, a pena treme, as lágrimas turvam as letras na tela e as mãos fraquejam. Não o suficiente para me impedir de abrir carinhosamente os braços e soltar o meu desabafo, com a voz embargada: “Reverendo Caio Fábio: aquele abraço”.

texto publicado na revista Vidamix no ano 2.000.

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