Botequinadas

Lula Vieira

Meus parcos, porém, fiéis leitores, conhecem minha relação amorosa com os botecos. Em diversas crônicas já louvei este templo da convivência, sua magia e suas leis jamais escritas, mas sempre respeitadas por todos aqueles que frequentam com responsabilidade um botequim.

Quando eu digo “com responsabilidade” eu quero dizer exatamente com responsabilidade, ora pois. Um frequentador à vera de botequins não é um simples pau-d’água, apenas um bêbado sem lar. Um frequentador de botequim é um ser sociável, comprometido, capaz de manter uma convivência enriquecedora com seus pares, seguindo todas as regras de conduta estabelecidas há séculos. Esse estatuto, cuja funcionalidade vem sido testada há gerações, tem construção permanente através do acúmulo de experiências nascidas da troca de porradas e negociações de paz.

A relação com os garçons, proprietários e gerentes é uma ciência sofisticadíssima, pois há interesses difusos que envolvem o lucro, troca de favores e estabelecimento de laços afetivos. Quem sabe frequentar um botequim, com certeza sabe se portar na vida. Tudo aquilo que as mães e pais sábios ensinam, tem aplicação prática no dia a dia no bar.

O respeito para com o semelhante, a necessidade de se tratar bem a todos, a importância de se seguir as regras de etiqueta à mesa, tudo isso vale para o relacionamento na empresa, na escola, na família e – sobretudo – no botequim.

Como vocês podem observar, estou jogando conversa fora, filosofando, enquanto não chegam os pasteizinhos e a primeira garrafa de vinho é buscada na adega. Uma punhetinha mental, espécie de esquentamento do cérebro, uma preparação para o jogo principal. Que pode ser uma discussão sobre o futuro do país, pensatas literárias, comentários esportivos ou os assuntos realmente fundamentais como tamanho e qualidade das bundas presentes ou simplesmente conhecidas.

Outras possibilidades são contar piadas ou contar casos. Há que ser eclético para viver com dignidade num botequim.

Como já disse, agora que chegaram os pastéis, a pimentinha feita na casa (buteco de responsa não serve essa viadagem de Tabasco ou seus genéricos nacionais) e o vinho foi aberto para quem é de vinho e o chope veio no ponto, está na hora de começar a contar os casos.

Pois vou falar do Manolo, um botequim da maior seriedade instalado no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, que faz um lombo que deveria ser tombado pelo patrimônio histórico como parte da cultura nacional, onde ainda há poucos dias se sucedeu um acontecimento digno de registro.

É que por motivos de trabalho estávamos por perto e resolvemos almoçar no Manolo. Éramos vários: um cliente importantíssimo, dois diretores da casa, nosso presidente, um autor best-seller. Saudados como se deve pela brigada da casa, nos acomodamos numa mesa comprida que mereceu, pela importância das pessoas, uma troca imediata da toalha de papel. Homenagem altamente generosa, pois a toalha tinha sido usada apenas duas vezes e ostentava poucas manchas, mas o Manolo sabe ser mão aberta quando necessário.

Pois bem, prosseguindo, o garçom mais conhecido da casa recitou o prato do dia, que tem três ou quatro variações. A piece de restistence, objeto do carinho da cozinha, é sempre algo sofisticado: dobradinha, cozido à portuguesa, feijoada, rabada ou o jamais devidamente louvado lombo à brasileira.

O segundo, para os mais sensíveis, seria o que podemos chamar comidinha de hospital, um tutuzinho de feijão ou um milanesa com salada de batatas. E, finalmente, para os verdadeiros pederastas gastronômicos, as bichinhas estomacais, o filé de linguado com arroz de brócolis. Depois das escolhas, a pergunta seguinte é: “… e para beber?”. Naquele dia, preocupado com minha imagem diante de tantas autoridades, solicitei uma Coca Zero.

O garçom parou de anotar, olhou para mim e perguntou bem alto: “O que aconteceu?”. Mandei vir o vinho de sempre. Hipocrisia não coaduna com mesa de botequim.

fonte: Propaganda & Marketing

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