O final de Lost e o livro de Apocalipse

Espiritualidade é um dos aspectos fortes de Lost, vide a “Santa Ceia” que serviu como divulgação da última temporada.

A série norte-americana Lost durou 6 anos e teve seus últimos episódios transmitidos domingo passado (23/05). De várias maneiras Lost entrará para a história da televisão mundial. Milhares de blogs fizeram análises dos mistérios apresentados pelo programa, gerando um envolvimento que vai muito além do simples ato de assistir algo na TV. Surgiram inclusive vários livros abordando diferentes nuances do seriado, como filosofia e história. O pastor Chris Seay chegou a publicar em 2009 um livro intitulado “ O evangelho segundo Lost”. Sem dúvida já surgiu uma “cultura Lost” que talvez possa ser comparada ao que os filmes de Guerra nas Estrelas gerou no entretenimento mundial. Críticos de TV chegaram a afirmar que ela mudou a maneira das pessoas assistirem televisão. Por isso, é provável que ainda se ouça falar dela por muitos anos.

O último capítulo traz consigo vários elementos espirituais, que não são exatamente uma novidade na série. Ao longo de seus mais de 100 capítulos, Lost apresentou várias idéias que podem ser claramente identificadas como espirituais, juntando aspectos de diferentes religiões. Somos uma geração visual e é senso comum que o que vemos na televisão influencia nossa maneira de ver a realidade. Não há espaço aqui para tentar explicar nada, mas apenas promover uma reflexão.

Na tentativa de “ler”nossa cultura com as “lentes” do evangelho, é possível afirmar que muito da proposta da série pode ser vista num paralelo com o livro de Apocalipse. Para começar, as duas histórias começam numa ilha. A de Apocalipse é Patmos, ilha-prisão em que se encontrava o apóstolo João. A de Lost é uma ilha-prisão que não tem nome e fica em algum lugar entre a Austrália e o sul da Ásia. De maneira similar, as revelações apresentadas nas ilhas mostram o verdadeiro sentido da existência, além do conflito entre o bem e o mal (Lost) e Deus e o diabo (Apocalipse). As duas  narrativas também não vêem o tempo como algo linear, misturando presente, passado e futuro. O importante é o todo, a narrativa, não a cronologia de acontecimentos.

Enquanto João apenas registra tudo o que ele viu e ouviu, os personagens de Lost acabam escrevendo sua própria história. As duas histórias também falam sobre um julgamento e a que todos devem ser submetidos. Em ambos há dois cenários: este mundo em que vivemos (conhecido) e uma outra dimensão, outro mundo (desconhecido). Nas duas narrativas a morte física não é a final, existe algo a mais, além deste corpo. Ambos as narrativas contemplam que a vida anda na linha fina entre as escolhas de cada um (livre arbítrio) e caminhos pré-estabelecidos (predestinação na Bíblia, destino na série). O final de ambos é uma “outra vida” e a necessidade de “redenção”. Mas enquanto na história da TV cada um precisa buscar a sua, na história bíblica essa redenção é oferecida pela fé em Jesus.

O cristianismo tem uma presença forte na trama, talvez começando pelo personagem principal da trama, o dr Jack Shepard. Seu sobrenome, em inglês, quer dizer “pastor”. Um dos lugares de acesso, ou “porta de entrada” entre os dois “mundos” em Lost é uma igreja. Na cena final da série a “explicação” sobre muito do que acontece é apresentada nessa igreja, que traz indicações de ser ecumênica, contemplando símbolos de várias tradições religiosas. É nessa igreja que o pai de Jack, Christian Shepard (que traduzindo seria “cristão pastor”) abre o entendimento do filho e dos expectadores. Depois de mostrar o interior da igreja com todos felizes por entenderem o que foi sua vida, ele abre as portas para que a luz entre.

João, o autor de Apocalipse, de certa forma faz o mesmo com seus leitores. No começo do livro ele se direciona a igrejas, trazendo uma mensagem para todos que estão nelas. Depois, vai narrando em grande parte o sentido da vida e fala de um lugar em que mesmo mortos, todos vivem e estão felizes, pois não há mais dor nem lágrimas. Todos passaram por algum tipo de provação, dificuldades, mas persistiram na sua fé e agora podem desfrutar da luz eterna que emana do próprio Deus.

Ao longo desses seis anos o personagem central deixou de ser o “homem da ciência” e termina seus dias como um “homem de fé”. Ele acaba fazendo um sacrifício final, morrendo para salvar seus amigos e enfrentando a encarnação do mal (monstro de fumaça) que quer destruir a ilha. Jack vence (a luta), mas ao mesmo tempo perde (a vida). Em Apocalipse, o personagem central também perde (a vida), mas vence (a luta) contra a encarnação do mal que quer destruir o mundo (o diabo).

Não, a série não é o que poderia chamar de cristã, nem tem uma mensagem evangelística. Apenas ressalto os aspectos acima por entender que há sinais da mensagem central de Apocalipse e da mensagem bíblica em vários aspectos da cultura pop. E Lost, assim como Apocalipse, dá margem a muitas teorias, interpretações apaixonadas e busca de respostas. Mas Lost, assim como Apocalipse não oferece todas as respostas. Talvez porque elas não sejam tão importantes assim. Os autores disseram o tempo todo que a série era sobre pessoas, relacionamentos. O autor de Apocalipse também oferece uma história sobre as pessoas que Deus criou e seu relacionamento com ele. Seria muito interessantes se entendermos a mensagem final de Lost, que como a mensagem final de Apocalipse é de esperança. O último livro da Bíblia começa mostrando como as igrejas deveriam ser e o que deveriam fazer. A  série termina mostrando com as igrejas deveriam ser: cheias de pessoas que mesmo mortas (para o mundo), puderam nascer de novo (em Cristo) e são felizes por isso. O que elas deveriam fazer? Mesmo sendo um lugar sem todas as respostas, vê-se o cristão (Christian) estender a mão, dar uma explicação sobre o sentido da vida e deixar a luz de Deus entrar.

Jarbas Aragão, no Blog dos 30.

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