A paz que vem do trabalho e da dignidade humana

Jorge Antonio Barros

Há muito tempo que eu não entrava numa favela. Grandes lombadas obrigam os motoristas a reduzirem a velocidade, logo no acesso principal. Ao desembarcar da van, notei o olhar de desconfiança de um sargento do 9o BPM, fuzil em punho, que comandava o policiamento na área, cuja principal missão era proteger a comitiva do governador Sérgio Cabral. Até chegar ao Centro Cultural Waly Salomão, que estava sendo inaugurado pelo AfroReggae naquela tarde, em Vigário Geral, passei por grupos de rapazes que exibiam o tipo físico de soldados do tráfico, desarmados. Como disse depois meu amigo Aydano André Motta, editor do site do mestre Ancelmo, Vigário Geral naquela tarde de quarta-feira era com certeza o lugar mais seguro do Rio de Janeiro. Com a presença de autoridades e celebridades, ilustres convidados do AfroReggae, nem polícia nem bandido ousaria estragar a bela festa de inauguração do novo espaço cultural, com certeza o mais bem equipado de uma favela carioca e um dos melhores de toda a cidade.

A convite de José Júnior, diretor do AfroReggae, eu só pude ir à festa por causa das férias, já que ocorreu no horário em que estou na redação do jornal. Tive o privilégio de testemunhar alguma luz no fim do escuro túnel da violência nas favelas do Rio. Com uma organização impecável, o evento levou ao palco Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros. Estavam lá Fernanda Abreu, Regina Casé e belas repórteres como Diana Bouth e Maria Fortuna, da coluna do velho homem de imprensa Joaquim Ferreira dos Santos, do GLOBO. “Foi um acontecimento fortíssimo”, como definiu pra mim o poeta Jorge Salomão, irmão do homenageado, que deu nome ao centro cultural. Uma festa que dá gosto de ver como manifestações como essa ajudam a elevar a auto-estima de uma comunidade historicamente marcada pela violência da guerra do tráfico entre as facções e com a polícia.

Onde ocorreu uma das maiores chacinas da história do crime no Rio – a de Vigário Geral, em agosto de 1993, com a execução de 21 inocentes – nasceu o grupo AfroReggae que é hoje  inegavelmente uma potência em termos de terceiro setor e empreenderorismo social. Entre outras proezas, Júnior conseguiu levar à inauguração um grupo de diretores do Santander, um dos patrocinadores do centro cultural. Quem imaginou algum dia que executivos de banco gastariam sola de seus sapatos italianos numa terra outrora infértil como a de Vigário Geral? O mundo gira, a Lusitana roda.

Com espaços muito bem desenhados e com acabamento de primeiro mundo, o Centro Cultural Waly Salomão tem estúdios de gravação de CD, de vídeo,  salas de aula de dança e tudo o que você pode imaginar de recursos multimídia. Com a preocupação de tornar-se um celeiro de artistas e produtores de cultura e entretenimento, o conceito do centro cultural rompe com a tradição burguesa de que pobre só pode ascender socialmente fazendo curso de torneiro mecânico do Senai ou de técnico em informática. Um centro cultural como o do AfroReggae é uma janela de novas oportunidades para uma geração de jovens em áreas pobres. É a possibilidade concreta de desestimular mais jovens de ingressarem nas fileiras do tráfico e trocarem a carreira de pó por uma carreira artística, que se não lhe garantir o sucesso certamente vai permitir o acesso a uma profissão e a um mundo antes inimiginável para jovens pobres da periferia.

Independentemente de qualquer restrição que tenhamos a trabalhos sociais como o do AfroReggae, o poder público não pode mais prescindir de parcerias com o terceiro setor para atender a demanda por políticas públicas mais eficientes na criação de uma cultura da não-violência. O estado jamais terá condições de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O ritmo imposto pela bateria do AfroReggae não pode ter mais volta. O batuque que entranhava corações e mentes naquela tarde de céu limpo era a trilha sonora que emocionava gente de todas as idades e classes sociais.

Bom seria que toda favela fosse assim como Vigário Geral naquela histórica tarde de quarta-feira, dia 26 de maio. Eu vi que é possível.

Agora veja o vídeo que eu fiz lá pra você, querido leitor:

fonte: Repórter de crime

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