Perda de tempo ou essencial na vida moderna? O que aprendi em um ano de Twitter

Paulo Nogueira

E EIS QUE AO entrar hoje no Twitter recebo a informação de que faz um ano que abri a conta. Não lembrava o dia em que tuitei pela primeira vez, mas a cena é clara para mim. Era um sábado de primavera, e eu estava vendo Roland Garros na sala de casa. A pergunta que aparecia no retângulo do Twitter era: “O que você está fazendo?” Dei a resposta: vendo Roland Garros. Não demorou muito para eu perceber que o Twitter seria inútil para mim e para muita gente se todos falássemos o que estávamos fazendo.

Um ano é uma boa oportunidade para um balanço.

O primeiro e essencial ponto é que o valor real do Twitter está nos links e, por meio deles, nas informações compartilhadas. A questão com a qual nasceu o Twitter se tornou rapidamente obsoleta. Salvo em casos realmente especiais, não há interesse maior em saber o que alguém está fazendo. As exceções se aplicam a pessoas cuja ação de fato tenha ou possa ter repercussão ampla. Barack Obama, por exemplo. A recompensa, aí, é o acesso direto ao público e a possibilidade de sentir o que pensa a assim chamada voz rouca das ruas.

Para celebridades, não se aplica essa lógica. David Letterman está certo e errado quando diz que o Twitter não serve para nada. Ele disse brutalmente isso a Kevin Spacey quando este numa entrevista falou com orgulhoso de sua legião de seguidores. Certo se você relata o que está fazendo. Errado se você usa o Twitter para aquisição e compartilhamento de informações, sobretudo pelos links encurtados. Como não é o caso das celebridades, Letterman está mais certo que errado.

Quando vejo casos de celebridades que abandonam o Twitter, não fico surpreso. Dizer o que você está fazendo é cansativo. Que você ganha com isso? Se você pudesse cobrar um real por seguidor, ficaria rico, ou ainda mais rico. Mas não. A celebridade vai usar o Twitter como um zé mané qualquer: de graça. Num primeiro momento, pode haver uma gratificação no ego. Nossa, quantos seguidores eu tenho. Depois, emerge a constatação cruel do fardo e da inutilidade.

Que eu estou ganhando com isso? Tempo eu sei que estou perdendo.As listas ajudaram a organizar a acumulação de conhecimento pelos links. Fiz as minhas. Tenho duas para minhas atividades jornalísticas. Nelas, coloquei as contas de grandes nomes do jornalismo internacional: BBC, New York Times, Washington Post, Der Spiegel, Reuters, Associated Press, CNN, Al Jazeera, WikiLeaks, para citar alguns. Quando entro nas listas jornalísticas, tenho um painel do que está acontecendo no mundo. A recompensa, para as empresas, é o aumento de sua audiência pelas redes sociais e, com isso, a possibilidade de se fortalecerem para lutar pelo dinheiro crescente da publicidade digital.

É este o filtro que faço. A filtragem é fundamental na era da internet. Com ela, você flutua no mar de informações. Sem ela, submerge.

Fiz o mesmo em outra conta essencial para meu trabalho: o YouTube. Assino, ali, os vídeos de gigantes da mídia mundial. Em pouco tempo, ao entrar no YouTube, tenho também um panorama do que se passa sem perdas de tempo. Mais uma vez, o filtro.

Claro que em meio à atividade principal pode sobrar espaço para outras secundárias no Twitter, como por exemplo retornar à questão de origem. “Estou em Oslo cobrindo o Eurovision”, como aliás é meu caso, pode fazer sentido como tuíte. Mas como exceção. Há mais riqueza quando envio um link com conteúdo relevante do festival: a música da Alemanha,  pela primeira vez em inglês  na história cinquentenária do Eurovision, digamos. (Música, especificamente, talvez esteja começando a dar um caráter de entretenimento para o Twitter.)

Passado um ano, tenho uma relação satisfatória com o Twitter. Estou feliz com ele. Recebo informações e passo informações.

Enquanto a troca for boa, minha conta estará aberta.

fonte: Época

dica do Chicco Sal

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Perda de tempo ou essencial na vida moderna? O que aprendi em um ano de Twitter

Deixe o seu comentário