Uma nova Reforma: re-formando desejo e imaginação

Daniel Oudshoorn

A fim de resgatar a Igreja como polis será necessário resgatar a Igreja como comunidade disciplinada. Este porém tem sido o aspecto da Igreja mais atacado pelo neoliberalismo, pois a igreja local tem se integrado por completo ao mercado de consumo; ao invés de frequentar uma igreja que disciplina nosso desejo e imaginação, é mais provável que frequentemos uma igreja que dá livres rédeas ao desejo que já possuímos1. Isso quer dizer que será necessário aprender a nos relacionarmos com a Igreja como comunidade que nos provê das disciplinas de que carecemos a fim de viver o cristianismo.

Como afirma Hauerwas: “Não quero ser ‘aceito’ ou ‘compreendido’. Quero fazer parte de uma comunidade com os hábitos e práticas que me levem a fazer aquilo que de outra forma eu não faria, para aprender a gostar de fazer aquilo que fui forçado a fazer”2. Em particular, a igreja deve praticar disciplinas que se contraponham às disciplinas impostas pelo neoliberalismo, a fim de liberar o corpo da repressão imposta pela alma3. Isso implica em incitar uma nova reforma – a reforma do desejo e da imaginação.

A igreja deve começar reformando o desejo, e restaurando-o a seu verdadeiro lugar e sua verdadeira finalidade4. Isso quer dizer que, enquanto o neoliberalismo disciplina o desejo fundamentando-o em carência e ganância, e alinhando-o a direito adquirido, a Igreja deve libertar o desejo, fundamentando-o em produtividade, paixão e criatividade agradecida.

Em vez de ver o desejo como função de carência, os cristãos devem entender o desejo como força produtiva, como abundante transbordar que traz continuamente novas possibilidades à existência5. Ao invés de ver o desejo como forma autocentrada de ganância, os cristãos devem entender o desejo como expressão de uma paixão pelo outro e, em particular, de uma paixão por Deus6. A igreja deve ocupar-se não do que é realista, mas do que é imaginável.

Entendido dessas maneiras, ao invés de se manter alinhado a um senso de merecimento, o desejo passa a se alinhar a uma participação grata e criativa no processo de nos apoderarmos do reino de Deus.

Além disso, enquanto o neoliberalismo disciplina a imaginação através de medo e desespero, a Igreja deve libertar a imaginação através de esperança. A imaginação, ao invés de ser utilizada para produzir fantasias que nos distraiam de nosso medo e desespero, pode ser tratada como “pensamento-em-tornar-se”, uma sorte de pensamento que transforma o mundo em vez de prover um escape do mundo7. De fato, substituir as doutrinas teológicas do neoliberalismo com as doutrinas teológicas do cristianismo é precisamente a forma de exercício que libera a imaginação a fim de transformar a ordem socio-política e econômica8.

Consequentemente, a verdadeira pergunta que a igreja deve fazer quando confrontada com o mundo do neoliberalismo não é “o que é realista, prático ou viável” mas o que é imaginável.9. Que os cristãos são capazes de imaginar completamente sem restrições fica evidente na esperança fundamentada nas promessas de Deus e na história do engajamento de Deus com o mundo. Como argumenta Moltmann10:

A esperança nada mais é do que a expectativa daquelas coisas que a fé crê terem sido genuinamente prometidas por Deus… É por isso que a fé, sempre que se desenvolve em esperança, causa não descanso mas desconforto… Os que esperam em Cristo deixam de ser capazes de suportar a realidade como ela é: começam a sofrer sob ela e a contradizê-la.

Tendo isso em vista os cristãos devem tornar-se “profissionais da esperança”, tendo suas imaginações unicamente disciplinadas pela recordação do que Deus fez e pela lembrança das promessas do que Deus está por fazer.

fonte: Poser or Prophet [via A Bacia das Almas]

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