Para escrever na pedra

Humberto Werneck, no Vidabreve

Com o perdão da insistência, volto a uma questão que me parece grave — inclusive no sentido que tem, na língua inglesa, a palavra grave. Você bate as botas e alguém manda gravar na lápide um texto que o faria morrer de vergonha, se morto já não estivesse. A morte é também isso. Por que, então, não cuidar do texto antes da fatal batida de botas? Como fez a escritora Dorothy Parker, ao imaginar letras minúsculas sobre uma vasta superfície de pedra: “Se você conseguiu ler aqui, é porque já chegou perto demais!”. Também é dela este aqui: “Desculpe o pó…”

Confesso que para uso próprio ainda não aprontei algo brilhante, ou mesmo fosco, a ser lido pelos pósteros ao pé de minha campa. Penso às vezes em recorrer à dramática secura de uma inscrição que vi no cemitério de Havana, verdadeiro grito gravado no mármore: ¡Irene Manuela! Mas talvez não mereça a carga emotiva desses pontos de exclamação arrevesados — assim como não me julgo merecedor, em meus piores momentos, de algo com que outro dia me deparei, quando, em companhia de uma amiga, perambulava por um cemitério de gente fina de São Paulo, em busca de artes funerárias de Victor Brecheret. Lá estava, sob o nome de um fulano de tal, numa lápide de granito negro: “A Bosta”. Você duvida? Hora dessas volto lá, fotografo e mostro aqui. Sim, nem toda pá é de cal, e tudo vira pó, inclusive aquilo.

O fato de ser autor de um dicionário de lugares-comuns e frases feitas me criaria constrangimento se quisesse recair no “descanse em paz” ou na “saudade eterna de seus entes queridos”. Mais coerente seria buscar inspiração num pocket book que já começa a ser curioso por ter a forma de uma daquelas lápides de cemitério inglês, com uma corcova no alto. Chama-se A small book of grave humour. Nele, certo Fritz Spiegl recolheu epitáfios do século XIX para baixo, mais hilariantes que lacrimogêneos.

Esta inscrição, por exemplo, trata com mortal franqueza a memória de um defunto humilde: “Aqui jaz John Taggart, homem honesto, baixo de estatura e manco de uma perna. Estava satisfeito com uma pequena participação que tinha numa lojinha em Wigtown, e isso era tudo”. Outra, ao reverenciar as virtudes morais da falecida, lança enxofre sobre a honra de suas conterrâneas: “Aqui jaz a pobre Charlotte, que não morreu rameira, e sim virgem, aos 19 anos, algo raro de se ver nas vizinhanças”.

Dois epitáfios são obras-primas de involuntário humor nonsense:

“Aqui jazem pai, mãe, irmã e eu. Todos nós morremos no breve espaço de um ano. Todos foram enterrados em Wimble, menos eu, que estou enterrado aqui”.

“Aqui jaz John Higley, cujos pais morreram num naufrágio. Se tivessem sobrevivido, os dois estariam enterrados aqui.”

No túmulo de um líder mórmon, afamado por dotes não exatamente espirituais, o Fritz anotou: “Homem de muita coragem e de um soberbo equipamento”.

Não faltam ao livro umas tantas reclamações póstumas:

“Ó morte cruel, como pôde você ser tão desapiedada, levando-o antes e me deixando para trás. Em vez disso, você deveria ter levado os dois, o que teria sido mais agradável para o sobrevivente.”

“Aqui jaz o corpo de Molly Dickie, a esposa de Hall Dickie Taylor. Com dois grandes médicos, meu adorado marido tentou, em vão, curar meus males. Por fim arranjou um terceiro, e aí eu morri.”

“Donald Robertson era um homem calmo e pacífico, e, segundo todas as evidências, um cristão sincero. Foi muito lamentada a sua morte, causada pela estupidez de LAWRENCE TULLOCH, que lhe vendeu nitrato de potássio em vez de sais de Epson, matando-o em três horas.”

“Em memória de Charles Ward, filho zeloso, irmão amoroso e marido afetuoso. Nota: Este túmulo não foi mandado erigir por sua mulher, Susan. Ela erigiu um túmulo para John Salter, seu segundo marido, esquecendo o afeto de Charles Ward.”

“Em memória de Ric Richards, que, com gangrena, perdeu primeiro um dedão do pé, depois a perna e por fim a vida. A morte cruel fez, de um, três refeições, para degustar e degustar até que tudo se acabasse.”

Como não me serve nenhuma das fórmulas reunidas pelo Fritz Spiegl, eu talvez acabe simplesmente plagiando o poeta Mario Quintana, que, inconformado com a iminência de seu passamento, quis epitáfio nestes termos: “Eu não estou aqui”. Pois também eu não pretendo estar.

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