Pra que serve a apologética?

Tom Fernandes

Sou o famoso chato. Além de procrastinador [nome terrível], sou chato. Sei que a eterna arte de deixar tudo pra última hora só não entrou no hall da fama dos pecados capitais por culpa de alguém procrastinando. Mas não sei de quem é a culpa de minha chatice. Acostume-se, tentei mudar, mas sou chato. Fazer o quê?

Sou chato principalmente sobre as questões de fé. Não sou descolado. Não sou fundamentalista. Você tampouco me terá em cima do muro. Simplesmente porque tenho mais o que fazer do que tentar me equilibrar em cima de muros. Ou não. Mas não gosto de muros, não sou descolado nem fundamentalista. Ateu? Herege? Chato!

Creio em demônios, sim, mas não acredito neles. Nem nos da old school nem nos modernos e modernosos. Creio menos ainda nos seus exorcistas. Vá por mim, a cada dez rituais de exorcismo; em nove, nem Deus nem o capeta se fazem presentes. Mas o negócio funciona como serviço público, é preciso criar cabides de emprego pra tanta gente com medo de dar a cara a tapa por conta própria.

Creio em Deus, sim, e acredito nele. Acredito a ponto de não me preocupar com o que falam dele ou em nome dele. Acredito em Deus por motivações minhas, não por conta de algum interesse ou vantagens resultantes da coisa. Mas não me peça pra ficar uma hora na frente da TV, ouvindo pessoas definindo Deus. Depois o chato sou eu.

Creio que hoje é sempre o oitavo dia, o dia do recomeço. O oitavo dia é sempre meu. Não me importo em saber se Gênesis é literal ou literário, não quero saber de onde veio a semente que deu origem ao mais lendário pé de maçã da história. Importo-me apenas que o oitavo dia é o dia do homem bater perna e correr atrás do que lhe importa. Disso não tenho dúvida.

Quais são as minhas dúvidas? Poucas. Dúvidas de quem tem poucas certezas. De quem é chato porque acha tudo isso muito aborrecido. Acho os extravagantes enfadonhos. Detesto gente babando no chão e se contorcendo por excesso de Coca-cola com açúcar e dizendo que foi o toque de Deus. Aborreço-me facilmente com gente que fala demais sobre o mesmo assunto. Falta de assunto é sinal de qualquer coisa, menos de espiritualidade. Bocejo na cara de quem vem me contar o testemunho de prosperidade que ouviu falar de alguém ou que viu na TV. Tenho a impressão de quem vive o evangelho da prosperidade também se casou apenas pelas vantagens de ter sexo, casa arrumada e alguém obrigado a aturar suas canhestrices.

Até esta coisa de ser descolado me aborrece. De trocar o nome das coisas. De chamar igreja de ‘outra coisa’, de falar que é contra a religião, de chamar Coca-cola de chá-com-gás e continuar tomando quatro litros por dia, mas metendo o malho em quem toma sua coquinha feliz da vida. Toda vez que alguém me chama pra ir a um lugar que ‘não é igreja’, ouvir alguém que ‘não é pastor’ falar algo que ‘não é pregação’, além de contribuir com algo que ‘não é oferta’ e devolver algo que ‘não é dízimo’ pergunto se posso participar daquilo que ‘não é ceia’ tomando um líquido cevado e gelado, mas que ‘não é cerveja’.

Mas tem uma coisa que me transtorna, que me deixa mais chato ainda. Os apologistas. Meu Deus, de onde veio essa gente? Até hoje ninguém me tirou da cabeça que a apologética é uma coisa criada pela concorrência, só pode. Esta semana soltei no meu twitter [cerca de 600 seguidores, metade evangélica]: ‘Pra que serve a apologética?’. Resultado? Vinte unfollows em poucos minutos. Nenhuma resposta. Engraçado, os apologistas não respondem o que são, não gostam que se pergunte o que são e apelam com quem pergunta. Acho que, na verdade, não sabem o que são.

O Aurélio diz que ‘apologia é a arte de defender, justificar, promover’. O que vejo os apologistas evangélicos defendendo é qualquer coisa menos sua fé. Defendem suas crenças, seus usos e costumes [mesmo os apologistas que são contra os usos e costumes tradicionais], seus dogmas, suas visões de céu e inferno, seus projetos políticos e suas visões de mundo.

Sempre achei uma falta de ter o que fazer ficar explicando porque o cristianismo é uma religião melhor que a adoração ao santo abacateiro temporão. Tenho suspiros dignos do Charlie Brown ao ver extravagantes versus neopentecostais versus pentecostais versus reformados versus católicos versus ortodoxos versus todo-mundo. Se fé fosse sexo, apologia seria masturbação. Já viu alguém feliz em seu casamento defendendo o tempo todo as bases de sua escolha e as dez razões irrefutáveis porque se casou com a Aninha e não com a Joaninha?

Quer minha definição? Pois bem, apologética é a arte de falar sobre algo que você não tem a coragem de viver. Talvez seja só chatice minha. Eu sou mesmo um chato. Mas também sou um palhaço sem circo, do tipo que faz pra graça pra todo mundo, mas não pra qualquer um.

fonte: Tom Fernandes

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