O tanto que não sou

Um dia, decidi fazer uma lista com os cem filmes da minha vida. E, graças a escrúpulos quase inconfessáveis, também decidi não incluir “O Paciente Inglês”. Foi um filme que de tal modo me transtornou e maravilhou que julguei que qualquer pessoa digna de ser pessoa não poderia passar indiferente por aquela parcela de Inferno escavada em beleza.

Enganei-me. Um objecto estético, por mais belo que nos pareça, não tem valor absoluto a não ser na nossa própria alma. E mesmo as pessoas que mais amamos poderão bocejar perante o poema que nos conduzirá ao suicídio ou à glória.

Hoje consegui roubar um segundo (na verdade, nem isso) para ir aos correios levantar o livro que a Gláucia, Um livro não se dá, a não ser uma vez, quando se escreve.em acto de caridade, a caridade de que fala Paulo no capítulo treze da Primeira Epístola aos Coríntios, me emprestou. Um livro nunca se dá, a não ser uma vez, quando se escreve.

Gláucia emprestou-me este livro e guardá-lo-ei, com a dedicatória, até que a morte, ditosamente mo transvie para as mãos e para o olhar de alguém que nele lerá aquilo que agora não conseguirei ler.

Hoje, ultrapassados os escrúpulos que me fizeram afastar o cálice amargo de “O Paciente Inglês” das minhas oficiais preferências, encontrei, em epígrafe do livro de Gláucia, aquele “todos os dias arranco o meu coração e ele torna a crescer” (Every night I cut out my heart. But in the morning it was full again), frase que se refere a um outro diálogo entre o paciente, antes de ser paciente e antes de ser inglês, e Katharine, em que este lhe fala de uma planta cujo coração deverá ser arrancado para, depois de absorver a humidade do ar nocturno, lhes dar, pela manhã, água no deserto onde correm o risco de morrer (e onde o Conde de Almásy não terá a romântica satisfação de morrer). Katharine responderá, de forma pragmática e brutal (ainda que disfarçada de simples humor negro): encontra essa planta e arranca-lhe o coração.

Assim é o amor. Não como Paulo o descreveu aos Coríntios, mas como se dá a conhecer, dolorosamente, a quem procura, não o desinteresse dos céus, mas as santas inclinações da alma, a que chamamos coração e que, na nossa bestial ignorância bem intencionada, julgamos ser egoísmo. E é apenas ausência. A ausência a que irremediavelmente nos entregamos, não por maldade ou indiferença, quando o objecto da nossa afeição está ao nosso lado, mas porque somos feitos de ausência, da mesma ausência que se derrama em lágrimas no primeiro poema, que Gláucia chamou de “O Tanto que não Foste” e que bem poderia ser “O Tanto que não és”, não fôssemos nós apenas orvalho e chuva depois de sermos gás, espírito, invisibilidade, ausência. Enquanto somos, não vemos nem somos vistos.

Meu amigo Manuel Anástacio que nunca abracei, escrevendo de uma terra que nunca pisei, falando sobre um livro de poemas que provavelmente não chegarei a ler, escrito por uma autora cujo nome vi hoje pela primeira vez. Pensei uma vez escrever um livro chamado Memórias do que nunca fiz, mas agora percebo que é só este livro que venho escrevendo, compulsivamente e sem recorrer às palavras. Minha marca não deixa outra marca que não a das omissões e das ausências. Que ilusão me convenceu a pensar que eu poderia chegar a ser algo além da soma daquilo que não sou?

Paulo Brabo, em A Bacia das Almas.

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