Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira

Sérgio Pavarini

– Quem quer dinheiro?

O bordão é o mesmo de sempre, mas quem o repete para as colegas de trabalho é Danilo Gentili. Após o infarto fatal que Silvio Santos sofreu durante uma empolgada sessão de Roletrando com a esposa, o ex-CQC foi contratado para comandar o Topa tudo por dinheiro.

Estamos em 2020 e o novo queridinho do SBT será entrevistado na segunda-feira por Emílio Surita. Ele também trocou de emissora e agora ocupa o sofá branco que pertenceu a Hebe Camargo. Contra a vontade, a coruscante apresentadora encontra-se exilada em um asilo para nudistas em Cap d’Agde, na França. Usando apenas peças de sua coleção de jóias, ela diverte-se ao misturar Viagra nas jarras de sucos. “Que gracinha!”, brada ao perceber os resultados da travessura.

Retrocedemos pouco mais de quatro décadas e Fausto Silva recebe o Legião Urbana no palco do Teatro Záccaro, na Bela Vista, centro de São Paulo. A platéia delira com o calor e vibra com a atmosfera descontraída do ambiente. Bandas conhecidas e anônimas são recebidas com piadinhas – juro por Woody Allen – engraçadas do apresentador. Saudades dos anos 80.

De repórter a apresentador do Balancê, programa de rádio de sucesso que chegou a ser transmitido com auditório, logo Fausto Silva recebeu convite para levar seu humor escrachado para a TV. A ex-telefonista da Rádio Globo Lucimara Parisi era a sua produtora.

Após 4 anos de sucesso, Fausto Silva foi contratado pela Rede Globo e em 26 de março de 1989 estreou o Domingão do Faustão. O contrato dele foi renovado há algum tempo e vai até 2017. Estima-se que ele receba mensalmente cerca de R$ 5 milhões.

As piadas de outrora deram lugar a arroubos de mau humor e amigos que participaram de sua trajetória foram deixados de lado. Artistas de quaisquer escalão são recebidos com os mesmos rapapés insossos e o programa é uma vídeo-cacetada na paciência dos telespec. Afinal, como falar do decantado padrão Globo de qualidade num programa em que o mala lê recadinhos escritos à mão em pequenos pedaços de papel?

“Ele se vendeu ao sistema”, reclamam alguns. Tenho o desprazer de informar que o apresentador não está sozinho nessa espécie de Titanic existencial. O mais chato é perceber que nossos abandonos e concessões estão em clima de permanente liquidação. Bastam alguns centavos e já nos locupletamos com tranqüilidade.

Quantos sorrisos entusiasmados de aprovação você já deu para o seu chefe após ouvir uma ideia estúpida? E aquele dia em que elogiou a blusa hor-ro-ro-sa que a namorada disse ter pago uma puta grana? Isso sem falar nos “eu-te-amos” meticulosamente interpretados porque o amor já foi para o saco, ao menos servindo para dar um pouco de vida a uma região carente de uso há algum tempo…

De concessão em concessão, corremos o risco de terminar a vida sem saber ao certo quem somos ou fomos. “As coisas não vão piorar”, disse o Renato Russo no palco do Perdidos da Noite. Errou feio o profeta. Parece que o vaticínio correto veio através da voz da Elis Regina: “A crise tá virando zona… Cada um por si e todo mundo na lona”. E la nave va.

meu texto + recente no Blog das 30 pessoas.

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