A volta

Levi Araujo

Há poucos dias um amigo me disse que ainda trago as sequelas da minha convivência com as instituições religiosas. Ele está certo.

Por isso é que eu conto com os meus camaradas e adversários para que eu vá me curando. Gostaria que fossem somente os camaradas, mas a dolorosa ajuda dos adversários não pode ser descartada por quem assume riscos e precisa desinflamar a alma.

Sigo na jornada sob a sina de um ex-presidiário na ânsia de voltar a viver; e isso me remete às minhas manias de perseguição, preservação exagerada da imagem, isolamentos e outras feiúras inomináveis – e irritantes – que estão em meu coração.

Análises e terapias a parte, o fato é que após sete anos de um severo ostracismo institucional religioso eu estou diante de dois grandes desafios, a saber: a articulação e coordenação de um Fórum Cristão de Profissionais e a formação de uma nova igreja.

Em ambos os desafios, a proposta é de seguir na busca de uma maneira de fazer as coisas sem a petulância de querer ser o inovador dos inovadores.

Certamente que desejo apresentar diferenciais e, quem sabe, até cases, mas não quero alimentar o meu discurso de divulgação e apresentação dos projetos com pedantismos e arrogâncias.

Desejo investir o meu tempo em obras que realmente agreguem valor e revelem um – e não “o” – jeito de Jesus fazer as coisas acontecerem.

Na verdade, eu desejo ajudar a construir comunidades que promovam encontros de espiritualidade cristã onde os meus filhos e netos gostem de ficar, crescer, aprender e conviver com a Trindade e as pessoas.

Isso é instigante e me faz arriscar, e como em todo risco, não há como não admitir que eu esteja receoso.

Mas as palavras de Mario Sergio Cortella em seu livro “Qual é a tua Obra?” me ajudam muito nessa hora: “Só seres que arriscam erram. (-)…o fracasso não acontece quando se erra, mas quando se desiste face ao erro. Nenhum e nenhuma de nós é capaz de fazer tudo certo o tempo todo de todos os modos. Por isso, você só conhece alguém quando sabe que ele erra, e quando ele erra e não desiste.”

Deixe-me tentar explicar melhor sobre o erro que mais me assusta.

Eu não quero errar me esquecendo que sou pó, aliás, foi isso exatamente o que outro amigo me alertou ao usar as palavras do próprio Cortella: “Não te esqueças que és pó!”

Outro amigo precioso também me advertiu dizendo: “Nossos líderes evangélicos (curiosamente, em outras áreas isso não é verdade!) amam tornar-se soberanos, autárquicos, inacessíveis, solitários.”

Eis aí exatamente o ponto que suscita uma pergunta: O que fazer diante dessa possibilidade de se transformar nesse monstro de arrogância?

Por outro lado, após anos de pó, húmus e humilhações, eu não posso aceitar a sepultura como o lugar mais seguro para viver.

Esse seria o meu maior fracasso.

A responsabilidade como esposo e pai me ajudam muito nessa hora, eu tenho que fazer a lição de casa como provedor e protetor.

Eu diria que a busca da viabilização econômica da família tem sido definidora na hora de arriscar e aceitar desafios.

Farei isso sem prescindir dos alertas, e apesar das sequelas e com a ajuda de Deus, eu espero lembrar sem prisões e amarguras os sete anos de pó e amargor e usá-los a meu favor.

Penso até em, de quando em vez, me vestir de saco e cinza, comendo ervas amargas e quem sabe passando a noite em uma cabana.

Sim, devo estabelecer as minhas festas e cerimônias de recordações vitais, para nunca esquecer o peso da escravidão e do gosto do pó do deserto.

Seria uma espécie de prática pedagógica anti-arrogância.

Mas eu oro para que isso não me paralise e nem me sepulte nas areias do fracasso de não arriscar.

Gostaria de não repetir alguns erros e diminuir a incidência nos novos, mas agora, no hoje, eu só desejo não sucumbir amedrontado e desistente diante dos novos desafios.

No começo dos meus sete anos de horror, ainda entorpecido pelos ventos do pináculo do templo, eu escrevi um artigo sobre a primeira eleição do atual presidente. Eram dias onde o discurso do medo estava em alta, e eu reagi dizendo: “A esperança nunca foi anestésica, mas sim um poderoso estimulante.”

Hoje eu uso a mesma frase para me encorajar a seguir na Jornada sem desistir.

Que Deus me seja bastante hoje e sempre!

fonte: Na Jornada

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