O pastor do hexa

Conheça Anselmo, pastor evangélico da seleção, que foi convocado três vezes para ir a copa

foto: Rafael Dabul

Anselmo Reichardt Alves não precisou esperar a convocação de Dunga no dia 11 de maio para saber que iria a sua terceira Copa do Mundo. Ele não é mais jogador (já foi) e, jura, não é membro da comissão técnica da CBF, mas terá papel importante nos bastidores da disputa na África do Sul. Ele é pastor evangélico e, desde o mundial de 2002, tem ajudado jogadores da seleção brasileira com apoio espiritual e atuado como confidente de alguns dos maiores astros do futebol.

Anselmo se aproximou da seleção pela amizade com Lúcio, titular na campanha do penta na Coreia do Sul e no Japão e hoje capitão da equipe. Os dois se conheceram em 1997, durante um congresso dos Atletas de Cristo em São Paulo. O pastor entrou definitivamente na vida do zagueiro em 2001, quando foi para a Alemanha ajudá-lo durante uma crise familiar. “Eu era recém-convertido e ele ficou muito amigo de minha família”, conta o defensor da Inter de Milão. A viagem à Ásia para acompanhar a seleção brasileira foi sugestão de dois ex-jogadores próximos, Marcos Paulo (ex-Grêmio) e Fabinho (ex-Joinville). Eles convenceram o pastor a acompanhar o time por acreditar que sua presença seria importante e o presentearam com a passagem. Coincidência ou não, o Brasil voltou com a taça.

Em 2002, nas folgas dadas por Felipão após as partidas, enquanto Roberto Carlos, Ronaldo e outros jogadores comemoravam as vitórias em festas de arromba, Lúcio aproveitava os momentos livres para conversar com seu amigo Anselmo, estudar trechos da Bíblia e ouvir conselhos, longe da concentração e sem atrair os holofotes da imprensa. “Cada um faz o que quer nesses dias livres. Para mim, eram momentos de fé”, diz Lúcio. Também evangélicos, mas de vertentes diferentes, Edmilson e o então novato Kaká logo se juntaram às rodas de oração e também ficaram amigos do pastor.

Durante a campanha do penta, em jogo contra a Inglaterra nas quartas de final, Lúcio falhou feio no lance em que Michael Owen abriu o placar e quase pôs tudo a perder. Depois da partida, vencida por 2 a 1 pelo Brasil com a cobrança de falta antológica de Ronaldinho Gaúcho, o zagueiro foi bastante criticado por ter entregado a bola de bandeja para o inglês. “Ele ficou arrasado e chorou muito”, disse o pastor recentemente. No ano passado, outro momento marcante. Antes da final da Copa das Confederações contra os Estados Unidos, o zagueiro soube que o novo técnico do Bayern de Munique não o queria na equipe que defendeu por cinco anos e pela qual conquistou oito títulos. Mais uma vez, os dois choraram. Depois de ir para o intervalo com 2 a 0 contra no placar, o Brasil virou no fim do segundo tempo. O autor do gol do título? Lúcio. “Nesses momentos difíceis, procuro sempre falar com um amigo. E Anselmo é um amigo para mim. Como Dunga e Jorginho (técnico e auxilartécnico da seleção), ele foi jogador, teve essa experiência e sabe o que passamos. Isso facilita muito”, afirma o zagueiro.

A voz dos céus

O ponta-direita Anselmo surgiu para o futebol nas categorias de base do Colorado, clube de Curitiba que, na junção com o Esporte Clube Pinheiros em 1989, deu origem ao Paraná Clube. Profissionalizou-se no Atlético Paranaense, mas, sem grande brilho, nunca se firmou numa equipe. Rodou o interior do Estado jogando bola por equipes pequenas e caiu em tentação. Passou a fumar, beber e usar drogas como éter e anfetaminas. Ele repetia o roteiro de seu pai, ex-jogador de futebol, com quem pouco conviveu. Foi criado pela mãe, que fugiu de casa com ele ainda bebê no colo, depois de sofrer seguidas ameaças de agressão do marido alcoólatra.

Sua vida mudou num jogo do Operário de Ponta Grossa em 1988. Durante a partida, ele diz ter parado de prestar atenção no que acontecia em campo ao ouvir uma voz que vinha dos céus. “Quero que você passe a eles a mensagem que já conhece”, dizia a voz, segundo Anselmo. Quando soou o apito final, ele decidiu que era hora de pendurar as chuteiras. Uma reunião com a diretoria selou seu adeus ao futebol, pelo menos de dentro dos gramados.

Anselmo passou a frequentar a Primeira Igreja Batista de Curitiba e, após concluir os quatro anos do curso de teologia, foi ordenado pastor. Pela ligação com o esporte, passou a fazer parte da missão Atletas de Cristo, criada em 1984 pelo então goleiro do Atlético Mineiro João Leite e pelo atacante Baltazar (ex-Grêmio), conhecido como “artilheiro de Deus”. Entre os nomes mais famosos que fazem parte do grupo estão: Marcelinho Carioca, César Sampaio, Müller, Bebeto, Taffarel, Silas e Jorginho, atual presidente do grupo. A proposta? “Queremos servir ao atleta. Não somos uma igreja, não tiramos o dízimo. Vivemos com ofertas de pessoas que amam o ministério. Somos uma instituição sem fins lucrativos”, explica Jorginho.

Se eu quiser falar com Deus

Num ginásio localizado ao lado do imponente prédio da Primeira Igreja Batista de Curitiba, que ocupa a metade de um quarteirão no Batel (bairro com um dos metros quadrados mais caros da capital paranaense), o pastor Anselmo mantém, desde 1999, o Ministério dos Atletas. O espaço oferece gratuitamente escolinhas de judô, futebol, basquete e vôlei, todas com “foco evangelístico”. Nas noites de segunda-feira, sempre às 20h, ele ministra o Culto dos Atletas.

Foi a um desses encontros, na noite anterior ao anúncio dos convocados para a Copa da África do Sul, que a Trip compareceu para conhecer o trabalho do pastor com os jogadores da seleção brasileira. No primeiro contato por telefone, Anselmo recusou-se a falar. “Deus abençoe o seu trabalho, mas não dou entrevistas”, afirmou antes de desligar na cara do repórter.

Uma hora antes do início do culto daquela segunda-feira gelada, localizo Anselmo numa sala à esquerda da entrada principal do ginásio. Peço licença e me apresento. Surpreso com a minha presença, ele me convida para conversarmos numa sala anexa, onde dois sofás e duas poltronas estão rodeados de bolas de basquete, vôlei, futebol, entre outros itens usados nas aulas de esportes. Sua feição me parece familiar, apesar das raras fotos dele na internet ou publicadas nas matérias em que foi personagem.

Pela fala mansa, o corte de cabelo e o jeito de se sentar, Anselmo tem um quê de Caetano Veloso. Um segundo depois, o formato de sua mandíbula justifica minha impressão inicial: ele passaria por um sósia de Willem Dafoe, protagonista do filme Anticristo, de Lars von Trier. Sentados cada um numa poltrona, ele desta vez ao menos ouve o motivo de meu interesse em sua trajetória.

“Minha história não vende revista. Ninguém quer saber dos meus projetos sociais com as comunidades pobres de Curitiba e ver aonde vou para levar a palavra de Deus. Só vende se associarem minha imagem à seleção brasileira, com a qual não tenho vínculo algum. Não tenho nada a ver com a CBF, não sou funcionário deles, não recebo um centavo deles nem de jogador nenhum, como andaram escrevendo por aí”, ele explica, referindo-se à cobertura da imprensa sobre jogadores evangélicos da seleção. “As reportagens pegaram muito mal com os meninos aqui. Como sou amigo do Lúcio, que é capitão da seleção, tem gente que começa a achar que dou mais atenção a ele que aos ‘Zés Ninguéns’, os atletas amadores ou em começo de carreira com quem trabalho aqui”, ele diz. Há controvérsias. “O que mais me admira no pastor Anselmo é que ele me trata da mesma maneira que atende o Lúcio ou qualquer outro atleta famoso. Se precisar de ajuda ou conselho, sei que ele irá aonde quer que eu esteja para me ouvir ou dar conselhos”, comenta o lateral direito Kaíque, 24 anos, dispensado pelo Corinthians Alagoano no fim do estadual deste ano e presente no culto naquele dia.

Toda vez que o nome de Lúcio é citado na conversa, aliás, o pastor me interrompe. “É Lucimar. Sou amigo do homem Lucimar Ferreira da Silva, e não do Lúcio jogador de futebol, capitão da seleção brasileira”, comenta, fazendo questão de usar o nome de batismo do zagueiro para demonstrar o grau de intimidade entre os dois. “E, sobre nossa amizade, só falo se ele autorizar. Não quero me promover por conta da imagem dele ou de qualquer outro atleta”, diz. No site da igreja, um vídeo no YouTube ilustrado com fotos mostra as atividades do Ministério dos Atletas. Nas imagens que mais chamam a atenção, o pastor aparece em jogos da seleção, ao lado de Ronaldo, com a taça da Copa do Mundo em 2002, ou numa série ao lado de Lúcio – digo, Lucimar. “Mas nunca peço um centavo nem camiseta e autógrafo. Faço meu trabalho com dinheiro da igreja e sempre para ajudar os atletas”, defende-se.

Após 40 min de conversa e com o pastor ainda bastante reticente em falar mais, o alarme de seu telefone celular soou. Seu iPhone indicava que estava na hora do culto. Quase ao mesmo tempo, sua esposa bate na porta e interrompe o papo definitivamente. Avisa que já passa das 20h e que Anselmo precisa comer. Em menos de 12 horas ele faria uma endoscopia. Acertamos dar sequência à entrevista no dia seguinte, depois de recuperar-se do exame.

O culto começa com cantoria e uma série de testemunhos de presentes. Num segundo momento, quem está ali pela primeira vez é convidado a se apresentar e dizer quem o trouxe para a cerimônia. Em seguida, abraços e cumprimentos coletivos e novos números musicais. Entre uma oração e outra, o pedido pelas preces aos colegas sem clube e aos que têm dificuldade com empresários ou dirigentes. Afinal, os presentes são atletas. O clima é de amizade entre os 61 fiéis que enfrentaram os 9 oC para estar ali. O ambiente leve e o tom carinhoso das falas em nada lembram o das pregações de igrejas neopentecostais, como a Renascer (seguida por Kaká) ou a Universal.

O pastor Anselmo entra em cena depois de 45 min. Ele começa seu sermão especial de Dia das Mães explicando a diferença entre a religião e o Evangelho. “A religião oprime, o Evangelho perdoa”, diz. Na sequência, fala de como a sociedade moderna “está mais preocupada em ter do que ser” e como o mau uso das tecnologias tem acabado com as famílias. “Em vez de estar presente, o pai dá um videogame para o menino. Não dou um computador ao meu filho porque sei que, se der, não conversaremos mais”, ele continua. Por fim, fala na mudança do papel da mulher na sociedade e na influência disso nos desvios do mundo atual. “A mulher descrita na Bíblia é a rainha do lar. Tem de cuidar do marido e dos filhos. Não quero dizer que não pode trabalhar, mas essa é a função do marido”, ele prega, sempre embasado nos salmos das escrituras sagradas. Sem tirar os olhos de Anselmo, os fiéis, sem nenhum tipo de sincronia, movem as cabeças afirmativamente.

A cerimônia termina depois de duas horas. Após falar com alguns fiéis, pedimos, eu e o fotógrafo, para que ele pose para uma foto. “Isso eu não posso fazer, senão depois vão dizer que estou querendo me promover ou coisa do tipo. Se quiserem, posso bater uma bola com meu filho e vocês fotografam.” Os poucos ainda presentes se surpreendem com a habilidade de Anselmo de dominar a bola. “O meu menino é melhor. Ele tem futuro”, diz, antes de, pela primeira vez na noite, falar de futebol. Está ansioso com a convocação de Dunga. “Por quê?”, pergunto. “O Lúcio, digo, o Lucimar estará lá”, continuo. E, caso o Brasil conquiste o hexa, caberá a ele a honra de levantar a taça em Johannesburgo. Se isso acontecer, não espere surpresas como o xingamento de Dunga a seus críticos em 1994 ou o “100% Jardim Irene” escrito por Cafu em sua camisa em 2002. Ele mais uma vez deverá vestir uma camiseta com os dizeres “I love Jesus” confeccionada por seu amigo de fé.

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Foto:
Carlos Eduardo Freitas, na Trip.

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