Obrigado, vírus

Lula Vieira

Um vírus entrou no meu computador e mandou meus arquivos aleatoriamente para todo mundo.

De repente comecei a receber mensagens de gente me elogiando por artigos antigos, agradecendo coisas e também pessoas perguntando o real significado de algumas mensagens que receberam.

Que vergonha!

Mandei (ou melhor, o filho da puta do vírus mandou) artigos meus para gente que eu não conheço, que se sentiu obrigada a me agradecer. Existe gente educada no mundo. Mas aconteceram também coisas que me deixaram arrasado.

Uma senhora me respondeu agradecendo eu ter lhe avisado que tinha acabado de depositar a pensão de minha ex-mulher no Banco de Boston. Escreveu ela que achava muito justo que eu fosse um ex-marido cumpridor de meus deveres. Mas terminava perguntando: “Quem é você?”. Deve haver uma crise de bons ex-maridos na praça.

Uma cliente, com a qual não tenho muita intimidade, me escreveu querendo saber por que eu a tinha chamado de “furona de merda”, uma vez que não se recordava de nenhum compromisso comigo. O tal vírus enviou-lhe um e-mail antigo destinado a uma amiga que não apareceu num jantar lá em casa.

Um jornal do interior de São Paulo me devolveu um artigo dizendo que tinha lido meu “interessante trabalho”, mas que infelizmente ele “não se adequava à linha editorial do jornal”. O artigo que eu tinha mandado era sobre meus devaneios sexuais. Era uma colaboração feita a pedido do “Ele e Ela”. Um artigo que eu escrevi para ajudar os novos diretores que estavam trabalhando de graça para pagar os compromissos trabalhistas da antiga Bloch. Cheio de sacanagem. O jornal é espírita.

Uma prestação de contas de despesas de viagens foi parar num outro cliente que, mui justamente, me lembrou que não sabe qual a razão para pagar uma ida a Belém, já que não tem nenhum negócio por lá.

Um e-mail que eu escrevi para o Zé Guilherme Vereza há muito tempo, e que tinha esquecido de deletar, dizia simplesmente: “Zé, pode ser as duas, no mesmo lugar?”. Foi mandado numa manhã de sexta-feira, atrasando um almoço agendado com ele. Uma tal de Vera, que eu não me lembro quem é, recebeu esse e-mail e me respondeu: “Lula, eu acho que é sempre melhor tentar dar só uma, mas bem dada”. A Vera é muito bem-humorada.

Para quem o vírus mandou minhas queixas, minhas poucas broncas, minhas declarações de amor e até mesmo meus ridículos poemas eu não sei. Só espero que as pessoas que os receberam façam o que se deve fazer com os bêbados no dia seguinte: não me contem!

Mas o melhor foi que muitos amigos, com os quais não me correspondo há tempos, acabaram recebendo algumas coisas minhas ainda que sem muito sentido. E me escreveram palavras amigas, mensagens de saudades. Voltei a me aproximar de gente que, por descuido, preguiça ou falta de caráter mesmo, tenho deixado de estar em contato. Esse vírus trouxe de volta velhas conversas, reatou laços afrouxados e fez próximos alguns distantes. Acabou com meu arquivo, me fez de palhaço, expôs algumas vergonhas, me fez pagar micos. Mas, em resumo, obrigado vírus!

fonte: Propaganda & Marketing

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