As Moscas Livres

Luiz Felipe Pondé

SOU UM HEREGE: acredito mais em horóscopo do que nessa “ciência da sustentabilidade”.

Duvido desse personagem, “o ativista”, que mais parece uma mosca que voa sobre o desespero alheio. Confio na Cruz Vermelha, nos Médicos sem Fronteira, mas desconfio desse personagem.

Pergunto de onde vem essa grana toda. Hoje em dia ser ativista pode ser uma boa pedida para quem gosta de conhecer o mundo e aparecer na mídia como bonzinho.

Afinal, quem pagou a conta daquela “flotilha da liberdade” (que brincou com o estado de guerra continuo que o Oriente Médio vive há uns três mil anos)? Santa Klaus?

Imagina só que legal para o book de um ativista poder dizer “I was there”… Tem ativista que vai viver uns vinte anos por conta daquela viagem “humanitária”. Vai acabar pousando em campanha publicitária por aí.

Voltando a sustentabilidade. Claro que devemos cuidar da natureza. Uma coisa é impedir que uma fábrica jogue lixo no mar, outra coisa é calcular quanto uma pessoa polui o mundo em seu cotidiano e gerar impostos, leis, moral e espiritualidade em cima disso.

Quando se delira com demônios, o ridículo é visível. Mas quando o delírio vem regado a cálculos “científicos”, se torna invisível. A modernidade tem um fetiche pelo controle científico da vida, não resiste ao gozo da opressão em nome da ciência.

Como alguém pode conceber uma “ciência da sustentabilidade” sem a paranoia de uma gigantesca burocracia de controle dos detalhes da vida?
Controlar desmatamento é uma coisa, mas calcular gases emitidos por vacas ou número de voos individuais ou sapatos “não sustentáveis” é loucura. O ordenamento sustentável da vida se tornará um tipo de totalitarismo sem precedentes.

E aí chegamos à assustadora alma fascista da cultura verde. Cuidado com o que come, onde anda, como vai ao trabalho, como faz sexo. Não viaje de avião, não coma picanha, não enterre ou queime cadáveres. Não use sapatos, não use casacos (vistam-se com folhas de parreira, talvez?).
Como toda forma de fascismo, sempre se trata, ao final, de uma forma de ódio aos humanos reais, no caso, em nome do amor às lesmas.

Ninguém percebe a marca fascista da “ciência da sustentabilidade”? Sistemas totalitários não precisam ser sistemas centralizados, como no modelo do fascismo histórico. Nem tampouco o que importa é o “conteúdo ideológico”, mas sim a forma de controle cotidiano de hábitos considerados “poluidores da pureza” desejada.

Basta somar “dados científicos” à máquina gestora do estado e do mercado constrangendo o comportamento com leis, impostos e produtos. E, finalmente, somemos os “Kommandos” (os ativistas) que denunciarão os “poluidores” à gestão da pureza.

Aliás, um parêntesis: os nazistas devem estar festejando a proposta de alguns ativistas antissemitas (sim, eu disse “antissemita”, só tolinhos creem na diferença entre antissemita e antissionista) de boicotar a “cultura israelense”. Sei que vão dizer que “cultura israelense” não é a mesma coisa que “cultura judaica”, mas só os mesmos tolinhos creem nesta diferença.

Os “não sustentáveis” serão a bola da vez. Temo que um dia esses fascistas verdes chegarão a conclusão que (como diz um amigo meu bem esquisito) o canibalismo é a forma mais sustentável de viver.

Afinal de contas, qualquer coisa que comamos, estaremos ferindo criaturas com “direitos”. Provavelmente advogados verdes defenderão as vacas contra a opressão que sofrem dos carnívoros. Em seguida, será a vez das alfaces terem direitos.

O canibalismo verde pode ser a solução: a pior espécie (os humanos) que já pisou no planeta comerá a si mesma, num ritual macabro de autopurificação em nome da sustentabilidade total.

Por último, tenho uma confissão a fazer. No último final de semana cometi um ato desesperado contra o fascismo verde. Foi apenas um pequeno ato singelo que desaparecerá no oceano dos dias por vir. Queimei com meu charuto uma maldita mosca que voava sobre mim. Minha culpa, minha máxima culpa… Será que já existe alguma ONG denominada “Free Flies” (Moscas Livres)?

fonte: Folha de S.Paulo

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