“A vingança é parecida com o amor, quente igual. E, cuidado, pode durar mais.”

“Ele fugiu do casamento depois de 5 anos”

“Eu não casei e fui feliz pra sempre.

Fui a namorada perfeitinha, inteligente, educada, linda, prestativa, bem humorada… e ele um canalha. Foram 5 anos e meio… eu quero ser inteira de novo! Quando vai acontecer? Quase 1 ano e meio de terapia, muitas tequilas e salto alto. Agora cansei. Cansei porque agora tenho companhia, mas não amo. Ou amo de um jeito diferente?

Amar pra mim, ocorre quando sentimos medo de perder. Eu não sinto. Sem rodeios, eu não casei e fui feliz pra sempre? E o ódio que eu sinto? Foram vinte dias antes do casamento. Casa construída, meu vestido lindo, convite caro, buffet da moda, igreja decorada, tudo sem casamento.

E aí? Tô aqui, ó! Morrendo de raiva, querendo que ele tenha um infarto, desejando que ele nunca mais se dê bem na vida. Tudo porque ele ficou na dúvida… “não sei se vai dar certo… não sei se te amo mais”… Ele levou mais de 05 anos para chegar a essa conclusão?

Eu já sei logo, ele não presta! Podia ser o cara lindo, educado, inteligente, que conhecia todos os restaurantes da cidade, que criava um clima romântico, o homem que não te deixava dividir a conta, de tão machista que é, o homem que se tornou o filho do seu pai, o homem por quem você morria ou matava, o homem que foi tudo pra você, mas só permanece em mim que ele não presta.

Estragou a vida da coitadinha. Daquela, agora mulher, porque ele levou embora a menina, que foge na hora em que as amigas jogam os buquês no casamento, finge que vai ao banheiro. Ela não quer casar. Se encontrar alguém pra amar um dia, vai juntar e não vai gastar pra ter vestido de noiva.

Foi embora aquela que tinha vontade de ser mãe. No máximo adotar alguém que já esteja grandinho, que não é pra estragar o corpo. E olhe lá. “Poxa, não chore, foi melhor assim…” Melhor assim? Melhor teria sido se ele tivesse me amado pra sempre. Melhor teria sido se eu tivesse casado, usado meu vestido, morado em minha casa, melhor teria sido ter construído minha família. Porque passei ridículos anos planejando tudo e 20 dias antes do casamento, levei um pé na bunda.

Isso é o melhor? Agora pago uma fortuna na terapia por não conseguir aceitar, por não conseguir amar mais, por conhecer outros homens e ainda achá-lo melhor. Tô aqui, pra titia, quase na casa dos 30, pensando que não vou sair disso. Tá, confesso que aprendi muita coisa, mas pra quanto sofro, será que é mesmo compensador? E esse emagrece e engorda que não acaba nunca. Ao menos hoje em dia ganho mais dinheiro. Porque gastar me faz bem feliz.

Será que temos apenas um amor na vida? Daqueles que te tiram o fôlego; daqueles que fazem você sentir frio no estômago; daqueles por quem você espera o dia todo pra ver… que você troca mil vezes de roupa pensando se ele vai gostar; aquele que você quer mostrar pra todo mundo… ainda vai ter? Tem mais de uma vez? Tem?

Agora todo homem me parece pouco. Ele era melhor ou estou mais exigente? Estou me obrigando a amar… sei que não é bom, e não é como eu quero. Mas é o que acontece. O atual, uma graça. Mas aquele friozinho na barriga, sabe? Não tenho, não… Eu não casei e fui feliz pra sempre. Afirmo! Eu não teria feito algumas loucuras… Mas vem cá, dá pra amar de novo?

Um abraço,

Marina”


Querida Marina!

Vai fundo no ódio, até enjoar.

Não procure dublês no momento. Será pior. Não adianta usar por se sentir usada. É o mesmo que pagar empréstimo com empréstimo.

Não sei se o amou verdadeiramente ou amou o que era com ele. Porque se sentia bonita, verdadeira, perfeita, inteligente e não mais precisava se preocupar com o futuro.

O futuro está aí, aberto, inseguro e instável. Como sempre será. O que mais irrita é que não resolveu sua história como queria, e nem resolveria com o casamento.

Em nenhum momento da carta, fala dele especificamente, do que ele representava na rotina, do que gostava, de suas manias e delicadezas. Ele se tornou um homem igual aos outros, não um homem que somente você conhece.

Mas expõe com detalhes o quanto que sofreu. Mergulhou no narcisismo infantil da ferida, de mexer na casca e espiar o corte.

Não vejo heroísmo no coitadismo. Vejo naturalidade, gritar quando dói, ofender quando o grito não encontra saída.

A vingança é parecida com o amor, quente igual. E, cuidado, pode durar mais. Eu não usaria uma vida para justificar o passado. Está ensandecida querendo mostrar resultado, provar o que ele desperdiçou, inventar uma paixão para esfregar na cara dele. Entendo como funciona. Quer resultado, evidenciar que ele é facilmente substituível, que a fila anda, que não sacrificará seus pensamentos para compreender sua covardia. Que o amor é uma casualidade, a gente conhece, fica junto e depois se separa. Que é uma mecânica, que não há dor que não seja superada, que não há mágoa que não possa ser lavada.

Não direi isso. Rasgar a página não é apagar o pensamento. Um dia ele cansa. Terá que sofrer todo início de carta. Não existe prevenção. Não existe como eliminar as frustrações. Você vai chorar – nem tanto por ele – por aquilo que não será mais.

Pensará e pensará como seguiria a história se ele viesse ao altar. Nunca seria como imaginou, garanto. Brigou por ele e não pode fazer mais nada.

É luto de si mesma.

Melhor o velório pessoal, a dignidade do desejo. A vingança é tentar se poupar do próprio sofrimento. Apressá-lo. Não adianta. O outro vai se sentir ainda mais poderoso, mais influente, mais amado.

Sua teimosia é com aquela meia década perdida. Não perdeu tempo, e sim descobriu seu tempo, que nunca foi o dele.

Costumo brincar que namoro que demora mais de dois anos vira amizade. Sou casamenteiro. Não podemos facilitar. Da próxima vez, casa para depois namorar. Planejar é adiar o amor, é procurar uma desculpa para não se entregar agora.

Fabrício Carpinejar, no Consultório Poético.
Arte de Natalia Goncharova

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