Prodígios do tempo

Helena Beatriz Pacitti

Foto: Fabio Pereira, RJ ©

Foto: Fabio Pereira, RJ ©

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras
nem delas careço.
Tenho todos os elementos
ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.

Carlos Drummond de Andrade

Você já se sentiu inadequado diante do mundo?  É como dançar o tempo todo fora do ritmo, desengonçado.  Não é que eu tenha a pretensão de consertar todo  o planeta lá fora e mudar o comportamento das pessoas, mas é preciso manter a sensibilidade sobre o certo e o errado, manter a lucidez sobre os sentimentos e os afetos simples.

Sobre o que acontece ao redor: sejam pequenas benesses, sejam as injustiças; durante o tempo todo, a alma não pode calejar.

Há dias fiz uma visita a uma grande corporação a fim de rever conhecidos.  Minutos antes eu havia saído de uma entrevista no consulado americano, depois de horas confinada e faminta. Passei em uma cafeteria aconchegante para comer um pedaço de bolo de chocolate e um espresso.  O tipo da coisa boba que me deixa no nirvana. Aí, revi os amigos e respondi, claro, que “estava tudo maravilhosamente bem”.  Afinal, estou às vesperas de aguardadas férias, de uma viagem tão desejada.  Estava feliz porque meus filhos adolescentes estão de bem com a vida.  Estava feliz porque me dei ao luxo de comer bolo com café quando assim o desejei.  Porque minhas pernas me permitiram ir e vir para onde quis.

Mas parece que feri alguma ‘regra socio-comportamental’ moderna.  Talvez fosse mais conveniente e a altura de minha profissão e  responsabilidades demonstrar um certo fastio, um cansaço, um quê de insatisfação, um stress básico, um pouco de complexo de pobreza, uma falsa modéstia de felicidade.

Senti a inadequação dessa alegria pueril diante daquele ambiente corporativo.  Não combinavam.  Pensei até no conteúdo da minha máquina fotográfica: cheia de imagens de casos clínicos e acidentes, e a seguir flagrantes das muitas festinhas de aniversário que promovemos no trabalho.

Até que é bom ser inadequado assim.  Minha ética pessoal hoje diz que posso abraçar meus pacientes e chorar com eles, ao invés de mostrar distanciamento profissional e ‘super controle emocional’.  Minha inadequação também me permite estar em paz com Deus sem alardear religião ou frequentar uma igreja.  Minha inadequação faz com que eu prefira ser lembrada muito mais pelo meu sorriso do que pelas coisas que disse ou fiz. O tempo me ensinou que ele é mesmo prodigioso para os que têm o coração leve: apaga as memórias desnecessárias e realça as preciosidades.

Ah, o tempo e seus prodígios. No vai e vem das memórias, lembro de uma pessoa que se relacionava com uma suposta amiga/funcionária de forma bastante negativa (eram do mesmo setor). Nesse relacionamento havia um desequilíbrio de poder e status acadêmico entre as partes envolvidas.

Regular e persistententemente, a primeira começou a solapar a integridade e confiança da vítima. Gestos, condutas abusivas e constrangedoras, humilhações repetidas, inferiorizações, amedrontamentos, menosprezos ou desprezos eram atitudes frequentemente aceitas ou mesmo encorajadas como parte da cultura da organização. No final acabou-se a amizade e a vítima desistiu do emprego.

Mais recentemente acompanhei outro grupo onde, durante alguns meses, havia se instalado a seguinte dinâmica de bullying: uma funcionária, embora hieraquicarmente igual aos demais, considerava-se inatingível e escolhia sua vítima, primeiramente isolando-a do grupo durante dias, semanas ou meses.

Nesse período não cumprimentava e impedia os colegas de almoçarem, cumprimentarem ou conversarem com a vítima, e, caso conversassem, queria saber o que estavam conversando, além de monitorar horários e atividades de todos, direcionando brincadeiras cheias de sarcasmo com objetivo de forçar a vítima a pedir demissão.

Também não era raro usar de outras estratégias como ironizar, difamar, ridicularizar, risinhos, rir a distância e em pequeno grupo, suspiros, falar alto ao telefone a terceiros expondo particularidades do trabalho,fragilizar, inferiorizar, menosprezar a vítima em frente aos pares e diante do próprio superior.

Desta vez o final foi diferente: o bully (=pessoa que praticava o abuso) é que foi demitido. Alguém que estava próximo ouviu desta mesma pessoa a seguinte frase (como de costume, em voz alta):  “Se eu pego quem fez com que eu saísse daqui, des-tru-o a vida dessa pessoa”.

Pois eu lhe diria: “Não vá atrás de ninguém. Apenas olhe o tempo e seus prodígios”.

Neste caso o tempo confirma que a ‘lei da semeadura’, cedo ou tarde, acontece mesmo.  O tempo mostra que o fruto não nega sua semente.  Ainda que a longo prazo,ainda que não estejamos aqui para testemunhar : cada um sempre colhe o fruto de seus atos e escolhas.

Descubro que minha inadequação é boa porque a inconformidade me aproxima do Divino, para Quem o tempo – finito e fugaz – nem existe. Mas para mim – uma poeirinha cósmica nesse Universo – o tempo faz prodígios.

fonte: Timilique!

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