Amo muito tudo isso

Marília Cesar

Era apenas uma menina na Copa do Mundo de 1974. Mas me lembro como se fosse hoje da manhã em que corri para a garagem de casa com uma fotografia nas mãos, e chorei – lágrimas sofridas de criança – de saudades de meu pai. Ele estava na Alemanha para mais uma cobertura da Copa pela então prestigiada Equipe 1040 da Rádio Tupi. Seriam, no total uns três meses sem a sua presença. Mais uma vez, ele corria o mundo atrás da Seleção dos Canarinhos, como fez durante quase trinta anos de jornalismo esportivo.

Desde pequena, portanto, assistir à Copa do Mundo é uma mistura de festa e melancolia. Foram muitas partidas sem ele, tempo demais de ausência para uma criança, tempo demais.

Apesar de acionar lembranças meio doloridas, a Copa é uma celebração global incomparável de alegria. É possível, durante um mês, imaginar como seria ter uma humanidade tão vibrante quanto esta dos estádios, que fosse capaz de sempre defender suas bandeiras pacificamente. Imaginar as nações de lados distintos do campo, vestindo suas camisas estreladas, coloridas, cantando seus hinos, gritando seus gritos de guerra, brigando, enfim, por seu povo, sem deixar de se divertir muito em meio ao combate.

Podia ser sempre assim, podia ser sempre Copa do Mundo no tabuleiro da vida real, da política externa, das negociações comerciais internacionais, das tentativas de acordos climáticos. Disputas em que o perdedor tivesse a capacidade de abraçar e trocar a camisa suada com o vencedor no final da partida– e, de vez em quando até, quem sabe, dar um beijo em seu rosto.

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