A título de brincadeira

Hélio Schwartsman

Se for para analisar a coisa racionalmente, o esporte em geral e o futebol em particular são a materialização da insânia.

Não faz nenhum sentido que algumas pessoas dediquem suas vidas a tentar superar, às vezes por um mísero milésimo de segundo, alguém que nunca viram num percurso que liga nada a lugar nenhum.

Mais estranho é imaginar que dois grupos de adultos supostamente racionais, expondo-se a moderado risco físico e atuando segundo regras absolutamente caprichosas, possam pôr-se a perseguir um objeto esférico com o objetivo anódino de fazê-lo cruzar uma linha desenhada no chão.

Muito pior é o papel do torcedor que, sem nem ao menos participar da brincadeira –sim, admitamos que é tudo uma grande brincadeira–, irrita-se com os erros cometidos pelo bando de marmanjos ao qual resolveu dedicar sua afeição e arrebata-se quando a esfera ultrapassa a Tordesilhas ludopédica.

Como se não bastasse, uma vez a cada quatro anos, num movimento que evoca os piores fantasmas do nacionalismo, o país para para assistir aos jogos do Brasil na Copa. Bancos e comércio são fechados, aulas, suspensas, horários de pico, antecipados ou retardados de acordo com os ditames da tabela. Mesmo que deixemos de lado o problema do nacionalismo, ainda cabe perguntar se as prioridades que definimos são as melhores.

A essa altura, o leitor deve estar-me tomando por um daqueles clássicos sedentários militantes, que, como Parmênides, abomina o movimento e, dando vazão ao mais excessivo esnobismo, despreza tudo o que o vulgo aprecia. Não é bem assim. Embora ninguém tenha insistido para o Dunga me levar para a África do Sul, sou o que se pode chamar de atleta amador. Cumpro com fervor quase religioso meus 16 quilômetros de corrida diária. Ainda que não tenha assistido a um grande número de partidas neste campeonato mundial, acompanho com mediano interesse os resultados dos jogos.

Minha intenção ao iniciar esta coluna postulando o despropósito da ação esportiva foi tentar provocar uma sensação de estranhamento com atividades que nos são demasiadamente familiares, principalmente em tempos de Copa do Mundo, a fim de reinterpretá-las em outros termos.

Apesar de constituírem um “nonsense”, todos apreciamos jogos, como o provam os bilhões de dólares anuais que o esporte movimenta. A pergunta é: por quê? A resposta curta é: porque nos dão prazer. E isso nos leva a uma reflexão sobre o prazer. Escrevi um longo artigo (só para assinantes) sobre o tema que foi publicado na Ilustríssima. Para resumi-lo em poucas linhas, uma série de estudos em neurociência e psicologia evolutiva aponta para novas e mais nobres funções para o prazer. Ele não seria apenas uma forma rápida e eficiente de nos fazer buscar o que precisamos (comida e sexo), mas teria também um papel fundamental para que nossos cérebros sejam ligados corretamente. Como explica o excelente “The Pleasure Instinct”, de Gene Wallenstein, o prazer funcionaria aqui como fio condutor, levando o indivíduo, desde a fase embrionária (sim, fetos já sentem prazer!) a buscar as experiências sensoriais necessárias para que seu cérebro produza e conserve as conexões neuronais críticas para exercitar cada um dos cinco sentidos e, no limite, até para pensar.

É, contudo, num outro interessantíssimo livro, “How Pleasure Works”, de Paul Bloom, que a discussão é trazida para o campo que nos interessa: o esporte. Mas comecemos pelo começo.

Para Bloom, seres humanos, ao contrário da maioria dos animais, têm a capacidade de antecipar sensações e extrair prazer (ou sofrimento) dessa antevisão. Isso nos habilita a distinguir ficção de realidade, o que abre toda uma avenida de novos prazeres, que incluem a arte, o esporte e várias outras esquisitices humanas.

Em primeiro lugar, ganhamos a possibilidade de “viver” situações ficcionais. A experiência pode não ser tão intensa como na realidade e, embora isso atenue as sensações, também nos preserva dos perigos. Assistir no cinema a alguém sendo devorado por tubarões é mais seguro do que presenciar a cena “in loco”.

Essa simulação segura é, em geral, uma boa oportunidade de aprendizado, seja para lidar com as próprias emoções, seja para adestrar-se numa atividade relevante. No mundo animal, as brigas de brincadeira entre filhotes são uma forma de aprendizado para a luta –sem o risco de ferimentos.

Ainda mais curioso, de acordo com Bloom, o fato de jogarmos mentalmente com o binômio segurança-emoção nos torna capazes de extrair prazer de sensações desagradáveis, como a queda livre da montanha-russa, o filme de terror e a seleção brasileira sob a batuta de Dunga. Esse comportamento pode prolongar-se para fora da ficção, desde que numa situação que saibamos ser controlada. É o que explica a nossa curiosidade diante de acidentes de carro, comidas condimentadas –o ser humano é o único animal que aprecia Tabasco– e até o masoquismo.

Especificamente em relação ao esporte, ele é um híbrido que combina os prazeres mais animalescos do adestramento numa atividade física com os prazeres estéticos típicos de espetáculos. A arte pura pressupõe sempre uma audiência. Já um esporte como o futebol pode nos proporcionar uma experiência agradável tanto quando entramos em campo como jogadores quando como o assistimos pela TV.

O diabo é que, como somos uma espécie essencialista, ou seja, estamos sempre em busca de uma natureza secreta e quase mágica das coisas, adquirimos uma ansiedade da performance. Não nos contentamos em jogar um jogo, queremos vencê-lo; não nos basta correr rápido, precisamos triunfar sobre adversários que nem conhecemos, nem que seja pela nada impressionante diferença de um centésimo de segundo. Obter algum tipo de primazia é uma obsessão humana. É o que explica a existência do “Livro Guinness dos Recordes Mundiais”, que funciona como um compêndio das excentricidades que o homem é capaz de imaginar na tentativa de distinguir-se.

Curiosamente, mais de 60 anos atrás, um pensador extraordinário hoje bastante esquecido, Johan Huizinga (1872-1945), antecipou algo das conclusões a que hoje vão chegando os neurocientistas.

Para esse historiador holandês, a ideia de jogo é central para a civilização. Em seu “Homo Ludens”, de 1938, Huizinga afirmou que todas as atividades humanas, incluindo filosofia, guerra, arte, leis e linguagem, podem ser vistas como o resultado de um jogo, ou, para usarmos a terminologia técnica, “sub specie ludi” (a título de brincadeira).

Extraio disso tudo duas conclusões: a) o mundo é uma piada; b) certos sistemas filosóficos e religiões deveriam pensar duas vezes antes de condenar o prazer como origem de nossos males.

fonte: Folha.com

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