Minha viagem é pela casa

Fabrício Carpinejar

Aceito a caretice. Extraviei o ânimo para camping. Nada mais desalentador do que espiar o dia por um zíper. Numa oca de pano. Acordar agachado e seguir com a impressão de que fui abandonado toda noite num porão. As costas reclamando da proximidade com a terra e a boca protestando pelo café morno.

Gastei a juventude procurando Woodstock. E só encontrei a lama.

Acampar é trabalhar o dobro para evitar trabalho. O que se desperdiça na preparação e na antecipação dos problemas nunca será recompensado durante a estada.

É aguentar a falta de água quente, conviver em filas de banheiro, rir de piadas sem graça para arrebatar a cumplicidade de estranhos e eliminar o medo de que algum deles seja um psicopata. Nem acredito que percorri 200 metros com um rolo de papel higiênico nas mãos, com cara de Sonrisal, cumprimentando as pessoas para despistar a necessidade.

Não me contento com a precariedade de festejar uma tomada ou uma lixeira.

Larguei o movimento estudantil na primeira excursão. Desertei de um Congresso do DCE. Já tinha pavor de pedir carona, sofri com a ideia de mendigar um colchonete.

Não lembro nenhum amigo descrevendo experiências prazerosas. O hábito é expor tragédias. Os mochileiros ajudam meus argumentos. Cometem o elogio do masoquismo e das privações. Talvez seja uma mania preventiva, arrumar histórias de superação na adolescência para se vangloriar na velhice.

Soa como miragem. É o mesmo que dizer que é inesquecível transar na areia da praia. Isso é para quem não conhece o Nordestão da orla gaúcha.

Acampamento é um internato voluntário, um serviço militar opcional. Armar barraca, carregar mochila com tudo socado, caminhar oito quilômetros, subir nas pedras, lascar os joelhos, para morrer de frio no topo do monte. Uma hora de caminhada para cinco minutos exclamando o pôr do sol e se convencendo de que a vida é linda perto da natureza.

Sou viciado em janelas, gavetas, guarda-roupa, travesseiros. Minha aventura é mexer nos botões do controle remoto. Procuro o conforto, não o luxo, a quietude das coisas em seu lugar, uma toalha de renda e um vaso de flores me dizendo onde é o centro da casa. Uma sala cheirando a livros e um quarto impregnado do aroma feminino.

Já sobrevivi a enchentes em Santa Catarina, já madruguei inchado de mosquitos em Mato Grosso, já perdi metade dos objetos e aparelhos por distração em Alagoas.

Não venha alegar que me acomodei, é gosto pessoal desde que minha avó colocou bolsa de água quente debaixo das cobertas na infância. Prefiro um quarto aquecido, uma cama fofa, e me recuso a dormir ao relento observando as estrelas. O romantismo morreu de pneumonia.

As viagens não me ensinaram a partir, apertaram a saudade e a vocação para voltar.

Não tomei jeito, não fiquei econômico. Não aprendi a fazer uma mala compacta e escolher o que devo levar de essencial e dispensar o que não será usado. Ela está cada vez maior. Com o superficial mesmo. Transbordando inutilidades. Pago excesso de bagagem, mas estou sempre prevenido para o sequestro. Desejo contar com várias opções de roupas para acompanhar a mudança do humor. Vá lá que esteja amarelo e tenha somente verde, vá que desperte vermelho e tenha somente branco. Há dias em que sou demônio, outros dias pai de santo. Continuo sendo o mais lento no detector de metal. Não deixo de botar o cinto porque ele vai apitar. A cintura está amarrada em minhas convicções.

A única barraca em que entro é a do meu filho debaixo da mesa.

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